

Mês da Consciência Negra
No ano em que o hip-hop chega aos 50 anos, o Apple Music comemora o Mês da Consciência Negra, celebrado em novembro, com destaque para o rap nacional. Reunimos Thaíde, Kamau e EBONY, três grandes artistas de diferentes gerações, que falam sobre influências, referências, o começo da carreira e a evolução do hip-hop brasileiro.
“Quando comecei [início dos anos 80], não existiam muitos rappers brasileiros, mas eu sempre escutava no rádio um chamado Pepeu. Tenho muito respeito por ele”, diz o paulistano Thaíde, rapper, apresentador, ator e artista pioneiro do gênero no Brasil. O rapper e beatmaker Kamau cita o DJ KL Jay, dos Racionais MC’s, como sua maior referência no rap brasileiro. “Ele me fez uma simples pergunta que me ‘incentivou’ a rimar: ‘Por que você não rima?’ Isso me fez pensar que eu sou capaz, já que alguém como ele viu algum talento em mim”, afirma o paulistano, que começou a carreira nos anos 90. Já a carioca EBONY, nascida e criada no século XXI, se inspirou em Drik Barbosa, na música “Mandume”, parceria com Emicida, e no rapper Froid. “Em ‘Sk8 do Matheus’, o Froid fala: Quando eu escuto rap, eu penso tipo: ‘Eu consigo’/ Eu sei, você não entende, eu não ligo/ Eu sei, você sente/ E sabe do que eu falo, eu tô falando contigo’. Eu senti isso”, diz a rapper.
Os três concordam que existem muitas semelhanças entre o rap norte-americano e o brasileiro. “O rap gringo nasceu nas ruas de lá, o rep brasileiro, nas ruas daqui. Como a geração atual está ganhando muita grana, acredito que hoje temos mais semelhanças do que diferenças”, diz Thaíde, que prefere a grafia rep, acrônimo de ritmo e poesia, para se referir ao rap nacional. “Durante muito tempo, seguimos o que era feito no rap norte-americano, mesmo inserindo o nosso tempero tanto na música quanto na temática. Mas hoje estamos mais atualizados com o restante do mundo”, acredita Kamau. “Acho que tem muitas semelhanças. É o estilo de rua que cresce na periferia, feito por pessoas da periferia para pessoas da periferia. E é uma cultura muito rica, formada por break, grafitti, pela moda street, é algo que se expande. Aconteceu lá primeiro [nos EUA], mas acontece aqui de uma forma bem parecida”, afirma EBONY.
Playlists de convidados
O rap nacional, que absorve muito da música brasileira, já passou por diversos períodos e está em uma fase próspera. Então qual seria o momento mais importante do hip-hop brasileiro? “Na minha opinião, o rep nacional está na sua melhor fase, mas o momento mais importante, com certeza, foi o início [anos 80], porque sofremos e encaramos todo tipo de embate – e até abate –, mas resistimos contra o sistema opressor. Por isso o rep brasileiro se encontra onde está hoje”, diz Thaíde. Kamau acredita que o rap brasileiro tem um alicerce importante construído nos anos 90 e que isso é resultado do caráter formador da geração que veio antes dele. “A geração dos anos 90 solidificou o rap como algo relevante na cultura musical brasileira. E isso culmina com as conquistas dos Racionais [MC’s] no álbum Sobrevivendo no Inferno (1997)”, diz o rapper. EBONY vê o presente e o futuro com otimismo. “O momento mais importante do rap é o que estamos vivendo agora, de mudança constante, com pessoas pretas conseguindo se manter vivas com a arte e com a música. E ainda tem muita coisa para melhorar, a gente ainda não atingiu toda a nossa potência como comunidade de pessoas pretas”, acredita a cantora carioca.
“O suingue brasileiro é inigualável. E involuntariamente ele acaba aparecendo na maneira como se faz rap no Brasil. Encontramos jeitos legais de brincar com a melodia nas batidas e no canto”, diz Kamau sobre como a música brasileira influencia o rap. Na opinião de Thaíde, o samba e a música nordestina são referências marcantes do hip-hop nacional. “Já fiz os dois”, diz ele. Para EBONY, a maior influência é um gênero que nasceu no Rio de Janeiro e que se retroalimenta do rap. “O funk é a maior influência do rap para as meninas pretas do Rio. E o rap também influencia o funk. MC Carol e Deize Tigrona faziam rap no funk”, afirma ela.
Ouça agora
Ser artista no Brasil implica algumas dificuldades. E ser um artista preto e de um gênero tão intrinsecamente ligado à periferia como o hip-hop definitivamente não facilita a sua trajetória. “O fato de eu ser preto nascido no Brasil já é uma grande dificuldade que hoje amasso e ponho no bolso”, diz Thaíde. “Eu cheguei com duas músicas, ‘Corpo Fechado’ e ‘Homens da Lei’ [ambas com DJ Hum, da coletânea seminal Hip-Hop Cultura de Rua, de 1988]. Na primeira, eu começo dizendo ‘me atire uma pedra, que eu te atiro uma granada’. Na outra, eu falo ‘a polícia mata o povo e não vai para a prisão’. Isso numa época de justiceiros (hoje chamados de milicianos), quando não havia celular nem câmeras para registrar nada. Foi difícil, mas passei. E tô passando”, diz o rapper. Kamau reconhece “o privilégio de ser filho de pais negros com ensino superior”. “Mas todo artista preto enfrenta decisões equivocadas de quem tem influência na indústria da música, como escolher artistas brancos ou de pele clara para serem as ‘vozes’ de um movimento como o nosso”, diz ele. “A dificuldade que encontrei por ser artista preta de rap no Brasil foi ser artista preta de rap no Brasil”, resume EBONY.
O hip-hop brasileiro passa por um momento vibrante, com uma vigorosa nova geração que amplia como nunca o alcance do gênero, que abraça a MPB, o samba, o pop e o funk e se desmembra no trap, no drill e em outras ramificações. “Dos artistas mais novos, eu gosto do Rashid, Zudizilla, Sant, Rodrigo Ogi, Stefanie, entre outros mais”, diz Kamau. “Eu curto todas as artistas mulheres da nova geração do rap brasileiro. Todas. Acho que elas têm muito estilo e algo a dizer de fato. Mesmo aquelas que tratam de temas mais sexuais, a gente entende que existe uma vivência por trás. Eu acho lindo como as mulheres conseguem fazer isso sem cair do salto”, afirma EBONY. Thaíde é mais diplomático: “Eu gosto de muita gente da nova geração, mas seria deselegante da minha parte falar de alguns e não de outros”.