Fito Páez: um guia

A reinvenção do clássico do rock latino-americano “El Amor Después Del Amor”, uma série e turnês por arenas e estádios trouxeram uma atenção renovada para a obra do músico argentino.

Folclore, tango e rock

Há quatro décadas, Fito Páez é um nome fundamental da música latino-americana. Nascido Rodolfo Páez, em 1963, na cidade de Rosário, na Argentina, ele é mestre na arte de criar melodias que marcaram o nosso inconsciente coletivo e desafiaram o status quo da música pop de língua hispânica. Sua obra resistiu ao teste do tempo, encontrando lugar para muito além das tendências efêmeras. “Charly Garcia me ensinou que a música é um caminho extraordinário e aqui estou eu, ainda lutando, sendo um ‘soldado da melodia’”, conta Páez ao Apple Music.
Em 2022, Fito viralizou ao anunciar uma versão reinventada de El Amor Después del Amor (1992), o álbum mais vendido da história do rock argentino. Além disso, a série que traça a jornada do artista, desde sua participação no movimento “La trova rosarina” até seu show inesquecível de 1993 no estádio de futebol Vélez Sarsfield, em Buenos Aires, trouxe uma nova onda de atenção ao redor do artista.
Para aqueles que ainda não exploraram sua extensa obra, este guia é uma introdução ao cancioneiro de um dos mais prolíficos músicos latinos. Se você já conhece a produção de Fito, esta é uma oportunidade de redescobrir seu legado para a música, passeando pela linha do tempo que marca sua evolução artística.
No início da década de 80, durante os últimos anos da ditadura argentina, Fito colaborou com Juan Carlos Baglietto, compondo músicas que ficariam conhecidas e que o levariam a se juntar à banda de Charly Garcia para a turnê Clics Modernos e a gravar os teclados do álbum Piano Bar (1984). “Charly é um dos fusíveis da Argentina”, diz Fito.
Sua busca artística envolveu mesclar harmonias do tango com rock e folk, um movimento inovador para a época. Em Giros (1985), seu segundo álbum, Fito combinou ritmos ternários e progressões de acordes menores executados em um teclado Yamaha DX7, instrumento essencial para a compreensão dessa sonoridade. “Yo Vengo a Ofrecer Mi Corazón” e “Tres Agujas” (esta do seu álbum de estreia, Del 63, de 1984, e que fez Charly Garcia se ajoelhar) mostram o compromisso de Fito com a música como matéria-prima. Isso levou à complexa, barroca e experimental obra-prima colaborativa La La La, com Luis Alberto Spinetta, de 1986.
A revolta pelo assassinato da avó do artista em Ciudad de Pobres Corazones (1987) ou seus problemas financeiros e pessoais durante a gravação do álbum Tercer Mundo (1990) iriam, mais tarde, definir o tom para a expansão do seu trabalho.

Pop vanguardista

A consagração definitiva de Fito Páez no imaginário mainstream do pop veio com El Amor Después del Amor, em 1992. O álbum mais vendido na história do rock argentino é uma ode ao amor romântico e um tiro certeiro no coração do sucesso, que levou Páez dos palcos dos teatros para estádios lotados. Como uma continuação inspirada pelo amor, Circo Beat foi lançado dois anos depois. Fito sabia como dar forma às músicas, testando os limites da sua capacidade artística e sintonizando na conexão do amor de uma maneira bem Beatles. É uma comunhão majestosa entre vanguarda e apelo popular. Então algo aconteceu: “Uma remessa com 500 mil cópias de reposição vinda da Alemanha foi roubada a caminho de Buenos Aires. Não sabemos quem foi. Circo Beat poderia ter sido meu álbum mais vendido, não El Amor Después del Amor. É a primeira vez que conto essa história”, revela Fito.

Revolta elétrica e política

Em Enemigos Íntimos, álbum colaborativo com Joaquín Sabina de 1998 que fez barulho na mídia, Páez confiou todas as letras ao artista espanhol. O projeto parece ter a missão de preservar as composições mais extensas de Fito em uma caixa de cristal.
No ano seguinte veio Abre Paez, transbordando de versos que questionam ostensivamente os aspectos políticos da Argentina, ao som de ritmos como reggae, rock e jazz. Entre as faixas mais marcantes nesse sentido estão “Al Lado del Camino”, saída direto da escola Bob Dylan, e “La Casa Desaparecida”, que retrata com acidez a história moderna da Argentina em nada menos que 11 minutos.
O início do milênio no país testemunhou o colapso do seu sistema financeiro. Dedicado ao primeiro filho do artista, Martin, Rey Sol (2000) é uma espécie de registro vivo desse período conturbado. O álbum traz uma série de críticas à situação política, cultural, social e espiritual da Argentina, acompanhadas por riffs distorcidos de guitarra – uma das marcas registradas de Fito é conectar sua revolta às seis cordas elétricas. Essa fúria desempenha um papel importante em Naturaleza Sangre (2003), uma jornada intensa pelas músicas mais comoventes da carreira do artista.

Cosmos orquestral e acústico

“Gerardo Gandini me disse uma vez sobre ‘Mariposa Tecknicolor’ [canção de 1994]: ‘Esta é uma peça de Mozart. Ele desenvolveu esse mesmo movimento de colcheia. É idêntico’. Nunca estudei Mozart. Talvez eu tenha escutado alguma coisa em casa, mas não tinha ideia de como ele compunha”, conta Fito. O universo do artista também abriu as portas para a música orquestral. Existe uma conexão óbvia entre sua paleta harmônica e a de alguns compositores clássicos. Os experimentos de Páez mesclam música moderna com nuances folclóricas, características românticas de Tchaikovsky, poemas emprestados de Federico García Lorca e melodias que lembram John Lennon.
Sua iniciação musical com professores de piano clássico, seguida pelo abandono desses métodos de ensino tradicionais, deixaram uma óbvia curiosidade em sua busca artística, que foi mais tarde saciada com os códigos que definem seu DNA musical. Ao mesmo tempo, Fito sempre deu espaço para o piano acústico, seu instrumento de base, criando álbuns inteiros apenas com vocais e piano.

Liberdade artística

A liberdade é um conceito perene no trabalho de Fito: ele vive em seu próprio universo com as regras que criou para si – um direito que conquistou com sua determinação de ferro. Ele pode mergulhar no seu mundo interior e sair de lá com um álbum de presente para os alienígenas (Canciónes para Aliens, de 2011) ou com uma coletânea de lados B que não combinaram com nenhum outro projeto. Páez consegue conceber três álbuns em 365 dias ou tirar a poeira do seu extenso catálogo reimaginando faixas consagradas, as desconstruindo e dando vida a elas em um novo universo. “Um dos poucos bens que tenho é essa liberdade quase obscena pela qual eu batalhei por muitos anos. Tenho muito orgulho dela. Você acha mesmo que com apenas duas batidas dá para explicar uma era? Talvez dê, porque se é isso o que a nossa época, o mercado ou as grandes gravadoras estão propondo como o mainstream, isso provavelmente fala sobre a crise criativa monumental que o planeta está vivenciando em termos de linguagem musical.”