

Nas cerca de duas décadas desde a primeira mixtape, The Come Up, J. Cole alcançou o topo da cena do rap. Raro e autêntico, o artista, que é fiel ao formato de álbum, estourou em uma era dominada por singles. O MC criado em Fayetteville, na Carolina do Norte, ditou as regras do que era sucesso no hip-hop, acumulando prêmios e marcos expressivos nas paradas ao longo do caminho. Agora, aos 41 anos, com uma base de fãs enorme e ávida por cada verso, ele dá um passo improvável: lançar o que é apresentado como seu último álbum, sagazmente intitulado The Fall-Off. Tratar este álbum duplo, com duração de longa-metragem, apenas como uma celebração final da carreira seria subestimar a resistência absoluta mostrada neste lançamento tão aguardado. De aluno a maestro do próprio gênero, Cole já acompanhou de perto diversas despedidas anunciadas e os grandes eventos que as acompanham, mas The Fall-Off não soa como a obra de alguém ficando sem assunto ou energia. Após o sample generoso do clássico de James Taylor, a suave “Carolina in My Mind”, que ancora “29 Intro”, Cole surge vibrante em “Two Six”, faixa sustentada por batidas potentes e pontuada por referências à cidade que o tornou quem ele é, em um movimento de retorno às origens que também ecoa em “WHO TF IZ U” e “Bombs in the Ville/Hit the Gas”, que, juntas, remetem à fase definida pelo álbum 2014 Forest Hills Drive. Assim como esta forte identidade regional permeia o nostálgico primeiro lado de The Fall-Off, chamado Disc 29 em referência a uma idade decisiva em sua vida e trajetória profissional, também se destaca a notável habilidade narrativa de Cole. Ele não esconde a já reconhecida influência de Nas em “SAFETY”, um retrato lírico de pessoas que cruzaram seu caminho apresentado com verve. O rapper também explora seu lado rock ’n’ roll em “The Let Out”, um alerta sobre o universo das baladas. A vulnerabilidade exposta em momentos como “Legacy” e em “Bunce Road Blues”, produzida por The Alchemist e com participações de Future e Tems, torna o projeto ainda mais intenso. Após todo o olhar para trás ao longo das doze faixas que compõem o Disc 29, em “39 Intro” ele dá um salto de uma década. É ali que começamos a enxergar como Cole se vê no presente, algo que se revela nas reflexões existenciais de “The Fall-Off Is Inevitable” e na homenagem a Petey Pablo em “Old Dog”. Nesta fase, Cole revisita o próprio passado com uma mentalidade mais madura, explorando a fundo as metáforas de “I Love Her Again”, que faz referência a Common. Naturalmente, ele fecha o ciclo com “and the whole world is the Ville”, levando tudo de volta às raízes em Fayetteville e aos anos que viveu no Queens, em Nova York.