

Em 2023, quando a gigantesca turnê Love On terminou, Harry Styles se viu em uma crise existencial após quase dois anos na estrada. Ele tinha lançado três bem-sucedidos álbuns solo em um período de cinco anos e, o último deles, Harry's House (2022), foi eleito o Álbum do Ano tanto no GRAMMY quanto no BRIT Awards. Ainda assim, prestes a completar 30 anos, o cantor sentiu que precisava reavaliar sua relação com a carreira. "Era simplesmente a hora de olhar para a forma como tinha feito tudo", diz Styles ao Apple Music. “Acho bom ter esses momentos em que, depois de trabalhar em algo por muito tempo, você para e se questiona: faço isso porque é o que venho fazendo há muito tempo ou porque é o que realmente amo?” Assim, em vez de correr para o estúdio, o cantor se mandou para a Itália, onde cozinhou refeições generosas, frequentou cafés e correu longas distâncias. Em seguida, Styles foi para Berlim, onde encarou sua primeira maratona depois de frequentemente ouvir suas próprias demos enquanto treinava para a prova. Essas demos, eventualmente, evoluíram para as 12 faixas do quarto álbum solo do artista, Kiss All The Time. Disco, Occasionally. (2026), um projeto inspirado por esse jeito de viver desacelerado e espontâneo, que incluiu ir a shows, fazer novas amizades e dançar bastante. “Que tipo de música tenho que compor para, quando estiver em um palco, me sentir como se estivesse na pista de dança?”, Styles perguntou a si mesmo, ajudando a explicar as linhas de baixo funkeadas e as sutis batidas quatro por quatro ao longo do álbum. Quando começou a trabalhar as faixas no Hansa Studios, em Berlim, Styles resgatou sua paixão pela criação musical. “Quando estava longe da música, senti falta dela. Esse foi o ponto-chave”, conta ele. “Se sentia saudade é porque ainda amava fazer isso. E ainda amo.” A seguir, o cantor compartilha as histórias por trás de algumas faixas de Kiss All The Time. Disco, Occasionally. Aperture “Para mim, ‘Aperture’ foi o começo perfeito, porque é sobre o momento em que me dei conta de que estava fazendo alguma coisa errada. Você consegue seguir em frente quando reconhece que há coisas que não sabe e, a partir disso, se abre para deixar a luz entrar. Acho que acabou virando a música mais livre do álbum. Ela é longa e divertida. Quando terminamos ‘Aperture’, senti que era meio que a última coisa que ainda não havia dito.” Coming Up Roses “Esta música é uma das coisas que mais gostei de fazer na vida. Escrevi ‘Coming Up Roses’ em dezembro, porque estava tentando compor uma música natalina. Essa ideia rendeu duas frases: ‘Tell me your fears/ I’ve turned back the clocks, it’s that time of the year’ [em tradução livre: ‘Me conte seus medos/ Voltei os ponteiros dos relógios, é aquela época do ano’]. A partir daí, ela meio que se escreveu sozinha e percebi que não tinha nada a ver com Natal. Para mim, é uma música romântica sobre o quanto algo pode ser especial e que nem tudo precisa durar eternamente para ser especial. Acho que alguns dos grandes relacionamentos que temos ao longo da vida nos ensinam que muitas coisas não são para sempre. A definição que temos de uma relação bem-sucedida é de longevidade e acho que isso acaba renegando toda a beleza e positividade que pode vir de uma relação na qual você aprende algo sobre si mesmo.” Dance No More “Me lembro de ir a uma balada em Berlim pela primeira vez e ficar parado no meio da pista de dança. Me senti tão inacreditavelmente livre e seguro que simplesmente joguei as mãos para o alto, fechei os olhos e senti as lágrimas descerem pelo meu rosto. Foi um daqueles momentos que pensei: ‘Nunca me senti tão vivo quanto agora’." Carla’s Song “Carla é uma amiga. Nós estávamos na casa de outro amigo, esperando para irmos a uma festa. Ela mencionou que tinha acabado de descobrir Paul Simon. Quando eu era mais jovem e morei em um pub por um tempo curto, havia um daqueles aparelhos de som com bandeja para quatro CDs e acho que Bridge Over Troubled Water ficou nele durante todo o tempo que vivi lá. Acho que é por isso que gosto de harmonias. Toquei ‘Bridge Over Troubled Water’ para Carla e, vendo a reação dela ao ouvir a música pela primeira vez, foi como testemunhar alguém descobrindo a mágica. Teve algo naquele momento que me fez lembrar no que você está investindo quando faz música. Talvez alguém escute uma faixa sua e diga: ‘Esta música vai ficar marcada na minha vida para sempre’. É o bastante. Não peço nada mais do que isso.”