The Mountain

The Mountain

Muita coisa aconteceu nos 25 anos que separam o primeiro álbum do Gorillaz e The Mountain (2026), o nono do grupo. Assim como The Nearer the Fountain, More Pure the Stream Flows (2021), álbum solo de Damon Albarn, o novo trabalho explora a perda e a transformação, temas que se tornam mais sensíveis à medida que o tempo passa. Embora as rugas não sejam visíveis nos rostos dos personagens animados do Gorillaz, Albarn e Jamie Hewlett, a dupla criativa por trás da banda, já passaram dos 50 anos e ambos perderam o pai em meados de 2024, quando estavam trabalhando em The Mountain. “Contém luto”, diz Albarn a Matt Wilkinson, da Apple Music Radio. “É pessoal, mas serve para todo mundo. Tipo, pode conter letras sobre luto.” O processo de luto de Albarn incluiu jogar as cinzas do pai no rio Ganges, em Varanasi, no norte da Índia. Hewlett também passou um tempo no país, entre 2022 e 2023, quando ajudou a cuidar da sogra, que sofreu um AVC em Jaipur, capital do Rajastão. Eles encontraram inspiração para o álbum ao confrontar a mortalidade em um país diferente. “É impressionante visualmente o que acontece [na Índia]”, conta Hewlett. “Há evidências de séculos de história nas ruas, como um homem galopando em um cavalo branco, vestido com uma roupa de 500 anos atrás. Ou uma pira funerária ou uma cerimônia de casamento. E aí você está no tuk-tuk em um trânsito formado por todos os tipos de veículos, além de vacas, cavalos, mulas, cachorros e até um elefante. Se um artista, músico ou uma pessoa criativa vai para a Índia e isso não dá um nó na sua cabeça, então claramente você não é uma pessoa criativa. Está tudo lá, bem na sua frente. E você volta pleno, com a mente cheia de ideias.” Essa influência fica mais evidente na sonoridade do álbum, parcialmente gravado em várias cidades da Índia. Como sempre, a música bebe de vários gêneros e se transforma no processo. Aqui, ela é permeada pela instrumentação e pelos ritmos de músicos clássicos indianos, como Anoushka Shankar, Ajay Prasanna, Amaan Ali Bangash e Ayaan Ali Bangash. A maneira como os indianos lidam com a morte, um contraste vibrante com a sobriedade do luto no Reino Unido, também causou um impacto na dupla. “O interessante é: por que isso?”, questiona Albarn. “Não é porque não temos capacidade nos abrir a ideias tão presentes em lugares como a Índia. Mas esse não é o único lugar que tem uma relação interessante com a morte. Vá ao México ou a Gana, qualquer lugar com um pouco de cor e alegria é uma boa maneira de compensar a austeridade. Parece que nós [britânicos] insistimos em deixar tudo mais sombrio. Então não é só um crematório, mas é o céu cinza e o frio.” Em The Mountain, a morte inspira demonstrações calorosas de amor: “The Sweet Prince”, coloca Albarn “contemplando o vazio” no leito de morte do pai, celebrando a vida dele e seu jeito de ser, enquanto se despede dele no seu “caminho rumo à outra vida”. Há esperança sobre passagem quando Asha Bhosle, uma lenda de Bollywood, canta em “The Shadowy Light” sobre a jornada para a outra vida em meio ao synthpop borbulhante de Gruff Rhys, do Super Furry Animals, que declara: “Eu me desfaço, troco a minha pele/ O fim é o começo". O auge da melancolia de Albarn está em “The Hardest Thing”. Nos álbuns do Gorillaz, a voz dele geralmente é distorcida e abafada, como pensamentos saídos de uma secretária eletrônica que não sabemos se quem liga é o próprio Albarn ou o personagem 2D. Mas nesta música a voz dele está intacta e vulnerável, e ele absorve a dor dilacerante da perda na frase “A coisa mais difícil é dizer adeus a quem você ama." Já na música seguinte, “Orange County”, esse mesmo refrão se torna parte de algo mais otimista e vibrante, acompanhado por um assobio alegre e a cítara de Shankar. “É a mesma música”, revela Albarn. “É um pouco como estar em um cômodo e sentir algo dentro de si. Depois, você muda para um ambiente com a iluminação adequada e o cheiro certo. É um espaço diferente, ainda que seja exatamente o mesmo lugar. São dois lados da mesma moeda, a minha moeda filosófica.” Essa temática encorajou o Gorillaz a revisitar gravações inéditas com colaboradores já falecidos. “Reunimos colagens, fotografias e memórias de pessoas que tivemos o privilégio de conhecer e com quem trabalhamos nesses anos todos”, diz Albarn. Tony Allen, ícone do afrobeat, canta suavemente “Oya, e dide erori” (“Oh, acorde, meu bem” em iorubá) em “The Hardest Thing”. Mark E. Smith, do The Fall, irrompe com sua potência vocal em meio à calma celestial de “Delirium”. Já em “The Moon Cave” esta vida se entrelaça com a próxima com a voz de Bobby Womack e traz Black Thought, do The Roots, trocando versos com o saudoso Dave Jolicoeur, do De La Soul. “Eles foram amigos próximos por muito tempo”, lembra Hewlett. “[Black Thought] teve uma conversa com o amigo que não está mais aqui.” Por mais pessoal que pareça nesses momentos, The Mountain é também um álbum com um olhar voltado para o mundo atual. No dub sombrio de “The God of Lying”, Joe Talbot, do IDLES, recomenda questionar tudo. Já o duo Sparks aparece como governantes autocráticos em “The Happy Dictator”. E “The Plastic Guru”, com participação de Johnny Marr, reflete sobre como a fé e a verdade podem ser manipuladas. Tudo isso faz parte de uma obra em que o Gorillaz soa revitalizado, tão curioso, arrojado, reflexivo e coeso como nos seus melhores momentos. O fim é um começo. “Foi uma grande aventura”, exalta Hewlett. “Isso mostra que, para criar algo realmente bom, você precisa ir aonde nunca foi ou ter uma experiência inédita, e não apenas ficar no estúdio em Los Angeles, Londres ou sei lá onde. A Índia foi esse lugar desta vez. E ela nos deu muito.”