

O multiartista fortalezense Mateus Fazeno Rock apresenta seu terceiro álbum de estúdio, LÁNAZAREATODOSQUEREMVIVERBEM, com um olhar positivo e abrangente para o futuro. “Eu senti que tinha o compromisso de apontar a minha poesia para caminhos de prosperidade, amor e sonhos, em contrapartida ao que eu fiz nos álbuns anteriores. Saí do lugar da dor para propor imaginários esperançosos às pessoas negras e periféricas. Foi importante fazer isso não apenas por causa do meu lado artístico, mas também sob o ponto de vista espiritual, já que parte do meu processo de escrita surge de composições brutas, quase psicografadas”, diz o músico ao Apple Music. Produzido por ele, Fernando Catatau e Rafael Ramos e gravado no Rio e em Fortaleza, o álbum aborda gêneros como rock, MPB, rap, funk e reggae e faz referências a religiões de matriz africana. As cantoras Mumutante e Jocasta Britto, parceiras do artista também nos palcos, são convidadas do projeto. “Pela primeira vez, no processo de criação, eu montei todo o esqueleto do álbum antes de iniciar a gravação. Isso foi importante pra mim. A produção foi uma experiência de muita troca, amizade, respeito e construção. No final, todos ficaram contentes com o resultado,” diz o artista, que comenta a seguir as faixas de LÁNAZAREATODOSQUEREMVIVERBEM. LÁNAZARIA “A faixa é autoexplicativa. Já no início eu canto: ‘Quando escutar essa canção/ Escute como fosse uma oração’. A música tem uma estrutura construída como se fosse uma reza e aborda os desejos, vontades e necessidades das pessoas da favela. ‘Eles querem brindar e bater foto/ Querem ter carro/ E querem ter moto.’ A letra é inspirada em encontros e memórias da minha vida. Acho que quem é fortalezense vai captar mais signos da música, mas quem não é vai poder entrar no imaginário desse território.” MELÔ DO SOSSEGO “A música é um questionamento sobre os caminhos e as repetições da vida – e segue o conceito do álbum, todo focado no desejo. Ela expressa o meu sentimento de esgotamento e uma busca pelo descanso. A sonoridade também expressa essa vontade de desacelerar o ritmo dos acontecimentos. O refrão reverencia a soul music brasileira.” SATURNO E A INTUIÇÃO “As faixas se conectam no álbum. ‘SATURNO E A INTUIÇÃO’ também fala sobre questionamentos e aborda a vivência de um momento de triunfo, mas sob o olhar de alguém que está cansado para aproveitar. Como diz a letra ‘No dia que o jogo foi transmitido ao vivo/ Eu vim do avesso’. Às vezes, nos nossos melhores dias, estamos enfrentando as piores batalhas. Trata-se de respeitar a intuição e não se deixar guiar pela ansiedade ou frustração. E ela tem uma mistura de reggae, ska e punk.” DAQUILO QUE NÓS MERECE “A faixa tem a colaboração do Nego Célio na criação dos beats. Ele é um veterano do rap cearense que me ensina muito e participou dos meus álbuns Jesus Ñ Voltará [2023] e Rolê nas Ruínas [2020]. A música fala sobre alguém da classe trabalhadora que busca um espaço de leveza para viver o amor de uma forma bonita.” ARTE MATA “Esta música expressa a minha vivência nos saraus e nos slams, quando comecei a minha trajetória como artista. É um manifesto poético sobre trabalhar com arte no contexto específico de uma pessoa negra, periférica e nordestina – e contempla os meus colegas também. Quando eu digo que ‘a arte mata’, há uma ambiguidade proposital. Se por um lado ela pode matar o artista, ela também pode derrubar preconceitos.” MERCADO DAS MIUDEZAS “É um reggae feito do meu jeito. A cultura do reggae é muito presente em Fortaleza e fez parte da minha formação musical. ‘MERCADO DAS MIUDEZAS’ fala sobre uma caminhada para trocar miudezas e aborda o poder do escambo em diferentes aspectos. Trata-se de dar e receber o que você quer do mundo com ética, seja no plano físico ou espiritual. Tem a ver com a sabedoria ancestral e com os ensinamentos de Exu.” QUANDO VOCÊ VOLTA “Esta é mais uma música de amor, tema pouco presente nos meus álbuns anteriores. Não tem como falar sobre felicidade, descanso e prosperidade sem abordar o amor romântico. É uma composição antiga, do fundo da gaveta, mas que dialoga melhor com este álbum. Ela é leve e mostra a beleza da rotina de quem está apaixonado.” O BRASILEIRO E AS ESTRELAS “Aqui entra um sambinha inesperado. É uma abstração. Na umbanda, a gente usa o braseiro para limpar o terreiro e preparar o ambiente para receber as entidades. Por isso eu canto: ‘Coitado do braseiro/ Que vem trabalhando tanto/ Pra trazer novas estrelas que iluminam o nosso céu’. Também pensei sobre a nossa relação fascinante com as estrelas, que estão há milhões de anos-luz de distância. A música resgata a presença dos velhos e dos nossos antepassados. Nas praias do Ceará, nós comemoramos o dia de Iemanjá em 15 de agosto, como eu canto no refrão. É diferente do restante do Brasil, que comemora em 2 de fevereiro.” REC.ORDAÇÕES “Não é uma música de amor romântico. Ela fala sobre as idas e vindas no mundo da arte e romantiza um pouco a vida na estrada e suas precariedades na busca de um sonho. A música surgiu depois de eu ter presenciado um episódio de racismo em um festival no Ceará. Voltei para o hotel e fiquei contemplando o céu e pensando sobre o que tinha acontecido. Abri o gravador e comecei a registrar o que eu estava sentindo. Ela traz à tona um pouco da minha trajetória como artista, que pode ser muito bonita, mas também muito dolorosa.” LICENÇA PRA DESABAFAR “A faixa é um desabafo cheio de informações e fala sobre lugares de privilégio e o poder de transformação que a gente tem. Geralmente a revolução das práticas de vida vem justamente dos corpos dissidentes e dos grupos marginalizados. Quando eu canto ‘É claro que vamos derrubar os tempos/ É só uma questão de tempo’, falo sobre essa percepção de mundo fascista e conservador que a gente precisa derrubar. ‘LICENÇA PRA DESABAFAR’ fecha o álbum entoando esse desejo.”