Universidade Favela

Universidade Favela

Nascido e criado na comunidade do Coqueiro, em Guarulhos (SP), Edgar volta às origens com Universidade Favela. Depois de uma temporada na Europa, o artista apresenta o seu sétimo álbum com uma lírica mais pop e comunicativa, sem perder o viés ácido e político das letras. “Eu acho que este álbum é uma passagem do intelectual favelado para o comunicador favelado. Eu percebi que muitas pessoas do meu cerne não estavam me escutando. Então Universidade Favela é um processo de voltar a entender o que rola na minha quebrada e falar de verdade com ela”, diz Edgar ao Apple Music. O álbum foi mixado e masterizado por Roniere Santos, mais conhecido como RHR, produzido por muitas mãos e combina gêneros como trap, drill, reggaeton e funk. Entre os convidados estão a chilena Luta Cruz, a franco-japonesa Maia Barouh e a paulistana Bia Doxum. Universidade Favela também tem um aspecto mais pessoal e aborda assuntos até então pouco explorados pelo artista. “Depois de uma conversa com a [DJ e produtora carioca] LARINHX, decidi tratar de amor e sexo nas minhas letras. Foi difícil achar um meio termo, mas me senti livre assim – e menos católico, o que é bom”, diz Edgar. A seguir, ele conta como cada uma das faixas de Universidade Favela foi criada. Descansa Militante “Esta foi uma das primeiras músicas produzidas em Paris com o [produtor] Dang, que é franco-vietnamita. Eu regravei o vocal no Brasil, e o [produtor] NELSON D, que é ítalo-brasileiro, ajudou a fazer a captação das vozes e canta no refrão. É uma faixa que resume a ópera toda, como se fosse um aviso do que vem a seguir. Com ‘Descansa Militante’ eu comecei a expressar temas pessoais que afetam a minha vida profissional e vice-versa. Tem a ver com relações, carne e sexo.” Original de Quebrada “É uma provocação para os moleques de Guarulhos, da minha quebrada. Eu canto, ‘Eu sou o mais original da minha quebrada’, uma brincadeira que acabou virando um bordão para nós. Eu voltei para lá e vi que, mesmo sem um ponto de cultura, tem uma cena acontecendo. Tem MC com milhões de seguidores, tem baile, tem batalhas de rima, é bonito de ver.” Perigos Noturnos “A música é o relato de um uma noite. Acho interessante compor em formato de crônica. Uma referência desse tipo de lírica é o trabalho do rapper paulistano Ogi [Rodrigo Hayashi]. Eu sou roteirista também, então gosto de pensar na música como um processo cinematográfico. Em vez de ser Medo e Delírio em Las Vegas [filme de 1998, dirigido por Terry Gilliam], é ‘Medo e Delírio em Guarulhos’. E tem um salve para o [rapper] Febem, para ele nunca esquecer quem ele é.” Paso Firme “Esta faixa, produzida por NELSON D, tem a participação muito especial da cantora e instrumentista chilena Luta Cruz. É para andar de carro como o braço para fora. A ideia inicial era eu cantar a parte em espanhol, mas ficou muito melhor com a Cruz, que é nativa na língua e muito talentosa. Quem fez a conexão com ela foi a minha grande amiga Bia Ferreira, uma artista de quem eu sou fã e com quem tenho muitas trocas.” Incapturável “Eu amo o instrumental feito pelo duo carioca Os Fita [Abel Duarte e Cainã Bomilcar]. Adoro eles, são meus parceiros de maluquice. Esta foi uma das primeiras letras que eu fiz para o álbum, quando ainda morava na Dinamarca. É como se fosse um prólogo. A lírica é bem pessoal.” Origami “A música tem participação da francesa Maia Barouh, filha do cineasta Pierre Barouh [que dirigiu o documentário Saravah, de 1972, sobre música brasileira]. Estávamos há um tempão nos falando à distância, mas a parceria nunca rolava. Então um dia eu a encontrei na rua em Paris, começamos a trocar ideia e finalmente rolou. Gravamos e compusemos juntos na casa dela. Foi muito bom ter feito esse processo presencialmente.” Relatos Selvagens “A música surgiu quando eu morava em Paris. A ideia inicial era ter a participação do Vandal, um artista que eu amo, mas ele estava num momento de muita correria. Eu tinha uma boa parte da letra pronta e comecei a conversar com o Dang, que a produziu. Eu canto em inglês e português, e ele queria entender o que eu estava falando, mas acabei não traduzindo para o francês.” Camisa 10 “Esta faixa é um drill em parceria com o NELSON D e o [produtor] Jammz. Conheci o Jammz em Londres, na abertura de uma exposição na galeria Serpentine. Ele chegou a me enviar 56 instrumentais, mas apenas dois entraram no álbum. Ele é inglês e é casado com uma brasileira, a DJ Peroli. O Jammz é fã do Corinthians, por isso entrou o grito de torcida na música: ‘Sou maloqueiro, eu sou/ Sou sofredor, eu sou’. Eu também sou corintiano, mas não tanto como ele.” Caralho Carinho “A faixa também tem uma estética de crônica e uma narrativa fílmica. Ela tem participação do Kazvmba, guitarrista do projeto Pedra Branca; de Nakata, baterista da Nomade Orquestra; e da Bia Doxum, que eu considero uma Lauryn Hill ou uma Negra Li da zona leste de São Paulo. Ela canta e compõe de forma muito interessante. A faixa pedia uma voz e um olhar femininos, pois a letra tem essa perspectiva. O resultado é uma música de amor sapatão no baile funk.” Canção de Amor “Esta faixa foi produzida pelo Jammz, com participação do Mulambo. É uma volta às minhas raízes, como se fosse um equilíbrio da minha caneta. Tem um pouco da narrativa de ‘Descansa Militante’ e uma escrita mais ponderada.” Antes Que o Mundo Acabe “A música também foi produzida pelo Jammz. Eu senti que estava fugindo um pouco da minha essência, então ‘Antes Que o Mundo Acabe’ é uma faixa que traz o meu estilo de volta. É apocalíptica, mas com dosagens de vida noturna. É sobre desabafar para não desabar.”

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