

Três anos depois do primeiro álbum solo, Bemti lança Logo Ali, projeto realizado por meio de edital da Natura Musical. “O álbum de estreia foi muito pequeno e independente, pago do meu próprio bolso”, conta o cantor em entrevista ao Apple Music. “Consegui tocar bastante: foram nove estados, três países. Com a pandemia do coronavírus, não consegui tocar em 2020, então o meu som amadureceu bastante. Então Logo Ali vem de um lugar de expansão sonora e temática.”
Além de cantar, Bemti também é compositor e violeiro. “O meu projeto solo é todo com base na viola caipira de dez cordas. O álbum tem várias experimentações com diferentes influências nacionais e internacionais.” Integrante da Falso Coral, o mineiro é formado em audiovisual e, para Logo Ali, criou uma narrativa que engloba todas as faixas. “O flow entre as músicas é muito meticuloso, muito pensado. Mas, narrativamente, brinco que é um álbum de amores e desamores atravessados pelo fim e recomeço de todas as coisas”, explica. “Ele é um épico mineiro apocalíptico, feito a muitas mãos, pois tem muitas colaborações, assim como arranjos muito grandiosos. Ele vai para uns lugares que eu realmente não tinha ido com o primeiro álbum.”
Com participações de nomes como Fernanda Takai, Marcelo Jeneci, Roberta Campos e Jaloo, Logo Ali conta com a assinatura de Bemti como diretor musical, algo que, aliás, o artista pretende continuar fazendo. “Foi uma experiência muito boa”, revela.
¬¬Já o título, segundo o cantor, era uma “iminência de alguma coisa muito grandiosa, ou o fim definitivo de tudo ou um recomeço para um lugar melhor”. Para ele, uma coincidência, pois começou a criar o álbum no início de 2020, “quando vivemos um colapso total”. “Eu estava começando a escrever sobre o apocalipse e aí, de repente, veio o apocalipse. Foi um processo muito bonito, na verdade. Algumas músicas que eu tinha começado a compor ganharam um sentido muito mais profundo. Outras já não faziam mais tanto sentido. Esse Logo Ali acabou virando o ato de apontar para frente: aguentar e chegar do outro lado.”
Tanto a produção quanto o lançamento acontecem durante a pandemia do coronavírus, algo que Bemti classifica como “um caos completo”. No entanto o artista acredita que o álbum pode ter um papel bastante importante para os fãs, como um “companheiro de jornada” para quem precisa.
A seguir, o cantor e compositor fala de detalhes de cada uma das 12 faixas de Logo Ali.
Canto Cerrado
“A abertura do álbum. Eu tinha uma ideia muito fixa, desde o começo, de que o início fosse como uma pessoa subindo uma serra e, lá em cima, ela encontrasse uma folia de reis. É uma música que entra em foco aos poucos e começa quase a cappella. Ela realmente é a introdução para esse universo épico e mineiro. Só essa primeira faixa já tem mais músicos do que o meu primeiro álbum inteiro. E ela é muito inspirada por Milton Nascimento e por Bon Iver. São duas influências também do álbum. Elas emulam duas músicas de abertura de que eu gosto muito: ‘Evocação das Montanhas’, do Anima, do Milton; e ‘Perth’, do segundo álbum do Bon Iver. Por causa dessa influência do Milton, eu convidei o Paulo Santos, que era do Uakti, um grupo instrumental mineiro muito importante, que tocou no mundo inteiro, gravou várias coisas com Philip Glass e trabalhou muito com o Milton. Nessa música, Paulo Santos tocou vários instrumentos inventados por ele, porque o Uakti tinha essa pegada de inventar os próprios instrumentos. Então é isso: ela é a introdução desse universo do álbum.”
Livramento
“‘Livramento’, para mim, é um dos carros-chefes do álbum. A letra é uma composição minha com a Nina Oliveira. No começo, ela sugeriu que fosse uma sofrência, então a métrica vocal é muito inspirada no sertanejo contemporâneo. Só que a música em si é muito inspirada em Laura Marling, que é uma das minhas artistas favoritas. Ela é britânica, do rolê indie folk. Por coincidência, em muitas músicas dela, ela usa um violão com a mesma afinação da viola caipira – que é em ré aberto. Em ‘Livramento’, eu chamei o Marcelo Jeneci para tocar sanfona, e ele ficou tão empolgado que acabou gravando várias coisas e virou coprodutor da música. Ele gravou sanfona, piano e vários tipos de backing vocal e deu várias sugestões no arranjo. Acabou virando uma música que tem muito do Jeneci também, o que eu acho genial, porque eu sou muito fã dele. Ele é uma referência muito gigante para mim, de música brasileira realmente. Já o final é uma grande celebração desse desamor do qual você não sabe tão bem se você deveria ter se afastado ou não. A música inteira se pergunta se é castigo ou livramento não te ter mais aqui. E tem as pistas na letra, da questão da pandemia. É muito essa dúvida sobre relacionamento meio embaçada pela pandemia, por esse ano virando areia etc.”
Catastrópicos!
“’Catastrópicos!’ foi o primeiro single e tem a participação do Jaloo. Foi a composição mais difícil da minha vida. Eu queria que o primeiro single do segundo álbum fosse um tipo de pop complexo, que eu quero muito que mais pessoas façam no Brasil. E eu quero muito que mais pessoas escutem. Então a estrutura de ‘Catastrópicos!’ é totalmente quebrada, é uma música que te engana de dez em dez segundos, cuja estrutura está sempre te enganando. Só que isso é envolto pelo arranjo, que é muito colorido, e pela voz do Jaloo, que é muito marcante. Brinco que é uma montanha-russa de quatro minutos. E a letra é bem essa coisa que tem no álbum inteiro, que é essa coisa afetiva, atravessada por um sentimento de apocalipse. Eu estou buscando refúgio afetivo enquanto as coisas desmoronam em volta de mim. Eu queria que fosse uma música para dançar e pensar.”
Se Entrega!
“‘Se Entrega!’ é o single mais recente. Eu acho que ‘Se Entrega!’ é, talvez, a música mais direta do álbum. Mas ela é também cheia de desconcertos. Você fica se perguntando: ‘Nossa, o que é isso?’. É uma música muito pop, com um beat de reggaetón. Só que aí a viola caipira tem pedal de guitarra, tem o vocal sintetizado, que também é muito inspirado em Bon Iver, mas também aponto muito para música viral, de Tik Tok. E essa voz sintetizada, na verdade, é uma mistura da minha voz com vocoder e com um canto do Saci, um passarinho do interior do Brasil. Então o álbum é cheio desses elementos antropofágicos, e essa é uma música que mistura muita coisa, muita influência nacional e internacional, nessa explosão pop, que não é um pop tão superficial, é um pop mais complexo. E ela é muito romântica. A primeira metade do álbum é mais afetiva, mais ensolarada, mais pré-apocalíptica. E a segunda metade é mais solitária, realmente desmoronando. E aí o final do álbum aponta para esse outro lado. Então ‘Se Entrega!’ é um momento – junto com ‘Quando o Sol Sumir’, que é a próxima – mais romântico do álbum.”
Quando o Sol Sumir
“Eu brinco que ‘Quando o Sol Sumir’ é os Vingadores da nova MPB, porque ela é uma parceria com Fernanda Takai, a composição é minha com Roberta Campos, e ainda tem Helio Flanders, do Vanguart, tocando trompete. Então é esse time de estrelas. ‘Quando o Sol Sumir’ era uma letra que brinca com essa dualidade de o sumiço do sol ser só um pôr do sol ou realmente o fim do mundo. Então essa música é sobre um amor que é tão gigante que ele continua existindo até depois que o mundo acaba. O começo do álbum é muito acelerado, as quatro primeiras músicas impõem um ritmo muito grande, muito forte. E ‘Quando o Sol Sumir’ é o primeiro respiro, com um arranjo muito delicado, que é só viola caipira e piano de cauda. E aí cresce de novo, com um arranjo superépico no final – também muito influenciado por Bon Iver e por outras bandas que eu amo, como Baleia, Mil, Sigur Rós. No final eu faço um vocal muito agudo, que eu nunca tinha feito na vida. No estúdio falei para o Léo, o técnico de som: ‘Velho, eu vou tentar fazer uma coisa meio Sigur Rós’. Foi o único take e está lá na música.”
Não Estava nos Meus Planos
“‘Não Estava nos Meus Planos' é uma parceria minha com os dois produtores, Luiz Calil e Pedro Altério. A gente compôs numa imersão que a gente fez no Gargolandia, o estúdio do Pedro, que fica no interior de São Paulo. Eu tinha essa ideia de compor uma música em estúdio, compor na imersão. Foi bem naquele momento, pré-segunda onda da covid-19 no Brasil, quando vários planos que eu já estava fazendo para 2021 desmoronaram de novo.”
Salvador (interlúdio)
“Esse interlúdio é bem divisão de atos. De novo: por mais que tenha esses pequenos respiros na primeira parte, eu gosto muito dessa primeira metade do álbum. Eu queria que as pessoas, ao final de ‘Não Estava nos Meus Planos’, estivessem sem fôlego. É tipo: ‘Meu Deus, tem um trator passando em cima de mim’. Então ‘Salvador’ é a cappella. É só a minha voz e a voz da Josyara, com esses sons ambientes de Salvador, os instrumentos distorcidos ecoando. E ela é realmente essa divisão do primeiro para segundo ato. Desse primeiro ato, que é muito afetivo e amoroso, vai para um momento mais de solidão. Na verdade, essa música tem um pouquinho de brincadeira (que eu acho que tem no álbum em geral) com esta questão: o que é soar brasileiro? Eu acho que esse interlúdio meio falado, meio recitado é uma coisa muito: ‘Uau, um álbum de MPB’. É uma brincadeira minha, me apropriando um pouco desses singles. Porque, no primeiro álbum, falaram que o meu som é muito estrangeiro.”
Habitat
“Ela é muito sobre solidão e sobre isolamento. E, ironicamente, eu a compus no final de 2019. Isto é o que eu acho mais legal: não mudei nada na letra dela, de 2019 em diante. Qualquer pessoa que escutar vai imaginar que é sobre isolamento social, e isso eu acho bonito, porque eu acho que é uma letra que vai conversar com qualquer tipo de solidão, sabe? Não necessariamente está restrita a agora. Nessa música, eu brinquei muito com um tipo novo de folk, indie folk americano, de que eu gosto demais, que é tipo Phoebe Bridgers, Bon Iver ou Lucy Dacus, que é uma superparceira da Phoebe Bridgers. Então nessa música eu insiro todas essas referências de uma nova música folk, que eu amo demais e que me inspira muito. Mas, liricamente, também tem uma coisa de Adriana Calcanhotto, que eu acho que é uma artista que tem cantado muito sobre o agora de um jeito muito sensível.”
Eu Te Dei Tudo Que Eu Sou
“Foi a primeira música que eu compus, para o segundo álbum. Eu lembro que, quando eu a compus, eu já sentia: ‘O segundo álbum vai ser essa coisa muito épica, muito grande e cinematográfica’. Então eu gosto muito de 'Eu Te Dei Tudo Que Eu Sou', porque ela tem um break instrumental que me deixa arrepiado, não importa quantas vezes eu a escute. E que ajuda muito a construir essa imagem do trágico que a música traz. Eu a compus em um momento de insatisfação: uma insatisfação de me sentir insuficiente em um relacionamento e de me sentir insuficiente para a indústria da música brasileira. Essa sensação de estar me entregando completamente, nas minhas músicas e nas minhas letras, e de as pessoas preferirem coisas muito mais superficiais. Então a música veio dessa insatisfação dupla. Mas que tem esse pé no oceânico, na coisa muito grandiosa.”
Samba!
“Acho que é um dos arranjos mais complexos do álbum. Eu brinco que o meu apelido para ela é ‘Samba da Björk’, porque, apesar de a música se chamar ‘Samba!’, de ser uma viola caipira, a maior influência dela é Björk. A música tem participação do duo ÀVUÀ, da Bruna Black e do Jota Pê. Não é só uma participação deles cantando uma linha vocal, mas eles constroem um arranjo inteiro da música, fazem percussão vocal, a voz deles emula o baixo, emula sintetizadores, que é uma coisa muito do Medúlla, da Björk. E tem uma coisa de coro e resposta, que para mim traz muito de ‘Pagan Poetry’, que é uma das minhas músicas preferidas da Björk. Só que aí tem também bastante Elza Soares, principalmente dos anos 1970, de Os Afros-Sambas, do Vinícius de Moraes e do Baden Powell. Então essa mistura de todas as coisas emula esse carnaval fantasma, que sou eu vendo esse cara em tantos caras. É meio uma sensação de um carnaval que não aconteceu, sabe? Você meio que rodeado por esses fantasmas de uma vida anterior, que ainda estão te acompanhando, e você não sabe muito bem como se livrar, porque você ainda está muito sozinho. Gosto muito de que o arranjo é grandioso e é dançante de um jeito meio melancólico. Para mim, é essa subida de rampa final, indo para a reta final do álbum.”
Do Outro Lado (Mantra Tornado Grito
“Tem participação do Morais, que é um artista português de uma banda muito emblemática de Portugal, a Linda Martini. Eu comecei a compor essa música com o Barro, em Recife, exatamente quando a pandemia começou, e eu fiquei preso lá – eu estava começando uma turnê no Nordeste, em março. A letra começou muito com essa dúvida que a gente tinha naqueles primeiros dias da pandemia, sobre o que ia ser, o que ia acontecer de fato, o que ia ser esse outro lado. E aí eu retomei essa música só na reta final das composições e das gravações. Era Dois saiu em agosto de 2018, então são três anos de composição que estão dando origem a Logo Ali, e ficaram várias músicas de fora. Nessa reta final de seleção, decidi colocá-la no álbum. Essa música tem tudo a ver com o projeto e com a mensagem dele. É a música favorita de várias pessoas envolvidas no álbum, justamente porque ela chuta o balde do experimentalismo e da grandiosidade.”
De Tanto Esperar
“‘De Tanto Esperar’ é pequenininha, só tem três minutos. Ela tem o mesmo andamento da ‘Canto Cerrado’, então ela compartilha vários elementos do início do álbum: tem alguns instrumentos, tem os passos, tem o tambor de folia, que são elementos que se repetem em ‘De Tanto Esperar’. E essa música fala sobre uma vontade de viver muita coisa, uma vontade de continuar e de fazer tantas coisas ainda. Mas o refrão é esse cansaço, né? Tipo: ‘Eu quero fazer tantas coisas, mas eu estou exausto’. O arranjo é mais minimalista, mas é pontualmente muito forte, os sintetizadores são muito fortes. A penúltima música é como um xeque-mate, e essa, para mim, é você saindo do cinema, tentando entender o que aconteceu.”