VÊNUS≠netuno

VÊNUS≠netuno

A cantora e compositora DAY LIMNS expõe os sentimentos de uma desilusão amorosa e se liberta da culpa cristã em VÊNUS≠netuno (2023), o seu segundo álbum. “Este projeto é baseado em sentimentos reais. Traça um paralelo entre a minha tristeza após o fim de uma relação e os traumas que a igreja me deixou”, diz a artista de Goiânia, que frequentou a igreja evangélica até os 20 anos e depois se assumiu lésbica. “Na mitologia grega, Vênus tem a ver com o amor romântico, a paixão e a sensualidade. Já Netuno está ligado ao transcendental e à espiritualidade. Eu quis abordar esses dois lados”, diz ela ao Apple Music.
Com participação do rapper mineiro Froid e da dupla Hyperanhas, o álbum traz um novo frescor ao rock ao combiná-lo com trap, drill, pop e R&B. “Eu não estou preocupada em fazer um rock nostálgico ou repetir o que já foi feito. Quero passar longe de fórmulas. É claro que quem gosta do rock dos anos 80, 90 e 2000 será muito bem-vindo, mas o meu propósito é falar com as novas gerações, olhar para o futuro e fazer algo novo”, afirma.
A seguir, DAY LIMNS comenta as 12 faixas de VÊNUS≠netuno.
KÁLICE  “Faltava uma música mais pesada no meu catálogo, então decidi abrir o álbum com ‘KÁLICE’. Aqui eu abraço os meus defeitos, assumo momentos de infantilidade, erros e imperfeições. É uma explosão de raiva para não adoecer por dentro. É também uma forma de libertação, eu coloco para fora os meus sentimentos.”
VERMELHO FAROL “É uma música bem significativa para mim. Falar de sexo com esta liberdade é uma conquista imensa, porque eu fui extremamente reprimida pela religião evangélica. Eu adoro a construção e as texturas da música. Ela brinca com referências do new metal e do trap e ao mesmo tempo tem uma levada leve e pop.”
CACOS  “Eu comecei a escrevê-la em 2022 com a Carolzinha [Carol Marcilio], compositora incrível que já trabalhou com IZA e Luísa Sonza. Os primeiros trechos da música me arrebataram – fiquei bloqueada e não consegui terminá-la. Então chamei Jenni Mosello, que finalizou a faixa comigo. E é sobre um relacionamento em que eu me sentia menos valorizada do que a outra pessoa, como se ela fosse perfeita. A música tem várias frases provocativas que funcionam como status do WhatsApp.”
EGOÍSTA  “Tem um pouco de R&B e trap soul, algo que eu usava bastante no início da minha carreira, mas agora faço isso de uma maneira diferente. É uma música romântica. É sobre não aceitar um término e ficar em uma posição de espera. Mas tem um ataque de raiva no refrão, justamente para construir um contraponto, tanto de sentimentos quanto de sonoridade. Esse é um recurso que eu adoro.”
MÁS CARAS “Ela traz novamente a temática da ilusão e da idealização, algo que permeia o álbum todo. Poderia ser tema de novela. Remete àquela cena triste de alguém que chora se arrastando pela parede. Mas ela também traz um resquício de esperança. Eu acho que assisti muito ao filme Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças [de 2004, dirigido por Michel Gondry], que fala de pessoas que passaram muito tempo separadas, mas que, em algum contexto, podem se reencontrar.”
MINHA RELIGIÃO “Eu coloco aqui o sexo e o amor como sagrados, espirituais e divinos. Eu vejo a outra pessoa em um lugar elevado, mas isso se torna injusto tanto para ela quanto para mim. Há muitas expectativas envolvidas nisso. É pesado, algo como uma cruz que a outra pessoa precisa carregar. Depois de fazer muita terapia, eu aprendi a lidar melhor com esses sentimentos e a tratá-los de forma mais madura.”
FIEL “É o ápice do álbum. Eu tenho orgulho de ter feito esta letra. Quando terminei, eu pensei: ‘Caramba! Eu sou uma compositora mesmo!’. Sou especialista em fazer músicas tristes. E eu sentia que faltava alguma faixa com voz e piano. É sobre nunca ser boa o suficiente. E também é uma crítica ao fundamentalismo religioso. A minha sexualidade sempre vai ser demonizada, pois só o que importa são os relacionamentos heteronormativos. Eu choro 99% das vezes que ouço esta música. É um presente para os fãs.”
ANJO CAÍDO “Ela entra para trazer um pouco de suavidade ao álbum. Quando eu canto ‘uau, deixou minha brisa numa onda infernal’, eu mostro o meu lado romântico incurável. Mas agora há mais lucidez, já percebo que a outra pessoa, assim como eu, também erra e não é tão perfeita assim.”
   CINZEIRO “A participação do Froid tornou a música mais filosófica. Ele trouxe intensidade nas rimas. É uma reflexão sobre a relação entre duas pessoas, salientando as diferenças entre elas. Enquanto uma quer pecar, a outra quer ser casta. Ou enquanto uma quer curtir a vida, a outra quer ficar ‘de boa’. E assim por diante, não tem certo ou errado, é só o jeito de cada uma.”
PURGATÓRIO  “É mais uma letra de que me orgulho muito. Eu travei para terminar o segundo verso, e a Jenni Mosello também me ajudou a finalizá-lo. Aqui é como se eu tivesse sido expulsa do paraíso, sem possibilidade de redenção. Só que agora eu começo a me sentir confortável com a culpa. Eu passo a me aceitar como sou. É para encorajar outras pessoas que se sentem demonizadas ou diminuídas. É uma música provocativa, com um tom de deboche e referências do início da carreira da Pitty, uma grande inspiração para mim.”
APOCALÍTIKA  “Tem a participação das Hyperanhas [dupla formada por Nath Fischer e Andressinha], que são as minhas artistas favoritas do Brasil quando se trata de R&B, trap e funk. Andressinha tem um estilo mais romântico e melódico, enquanto Fischer é mais apimentada. Isso traz novamente o contraste entre Vênus e Netuno. É também uma das faixas mais experimentais. Tem new metal, jersey, drill, trap, rock e pop. Tem a ver com a minha saída da igreja evangélica – e é apocalíptica mesmo. Antes eu não podia falar de tesão nem de masturbação, nem mesmo beber uma cerveja. Esta é mais uma música de libertação.”
NIRVANA  “Não tem nada a ver com a banda Nirvana. Ela segue na onda espiritual do álbum e aborda o ápice do autoconhecimento, do divino e da plenitude. Mas o álbum termina ainda desiludido. Eu não quis trazer uma resolução, porque eu acho que a vida é uma constante busca e a gente tem que ser realista. Se eu pudesse, faria trilhões de faixas, pois são sentimentos infinitos.”