Notas dos editores “Foi numa ruazinha de Austin que essa história começou”, diz Benke Ferraz, do Boogarins, ao Apple Music em resposta à pergunta sobre as origens do álbum Manchaca Vol. 1. O guitarrista e produtor conta que o trabalho nasceu como um projeto paralelo enquanto eles gravavam as músicas que dariam vida aos seus dois discos anteriores, Lá Vem a Morte (2017) e Sombrou Dúvida (2019), durante uma temporada na cidade texana. “O Manchaca Vol. 1 virou um projeto maior do que a gente imaginava. A gente foi trabalhando nele e, de repente, eram 20 faixas. Pensamos: ‘Cara, a gente pode ter um disco duplo aqui’”, explica Benke. "Então, depois de ter lançado nosso quarto álbum, soltamos esse material oficialmente, uma compilação de 20 músicas inéditas em dois volumes. Com certeza vai nascer alguma outra coisa desse momento também.”

E, de fato, foi nessa casa na Rua Manchaca – que dá nome ao novo álbum – que o quarteto de Goiânia, formado por Benke, Ynaiã Benthroldo, Fernando “Dinho” Almeida e Raphael Vaz Costa, viveu uma de suas fases mais prolíficas, com uma produção musical intensa e bastante experimental. De certa forma, a banda que começou com dois amigos de colegial, Dinho e Benke, fazendo música em seus quartos, faz, nesse trabalho, uma espécie de retorno às suas raízes garageiras. “Foi a primeira vez que nós quatro moramos juntos numa casa por dois meses, produzindo música, trabalhando e dividindo a vida. Este álbum traz recortes de vários momentos desses tempos em Austin e na casa, quando a gente conseguia produzir em paz, fazendo tudo no nosso tempo, criando as coisas mais inventivas da nossa cabeça”, conta Benke. “Tem essa produção muito espontânea, lo-fi, como os áudios de celular gravados, que às vezes vão passar uma emoção muito mais legal do que se a gente tivesse feito uma megaprodução. Então são momentos reais, importantes, que foram rolando. Acho que é isso, um tributo ainda em vida da banda.”

A seguir, o guitarrista conta outras histórias por trás de Manchaca Vol. 1, música por música.

Aquele Som
“Acho que esta é uma das músicas mais delicadas do Boogarins, e talvez seja por isso que ela não entrou no Sombrou Dúvida. Foi uma faixa muito bem produzida, bem pensada, não é uma demo. Ela já estava pronta para entrar no disco, mas tinha um clima que, para nós, destoava do Sombrou Dúvida, que é um álbum bem rock mesmo, puxado para um lado mais experimental também, então acabamos não usando. Mas a gente tinha um carinho enorme por esta música, ela tem, digamos, a pegada mais Beatles que o Boogarins já fez, uma coisa meio orquestrada, com arranjo, são vários momentos diferentes na faixa, com uma quebra de expectativa no meio e um coral no final com direito a palminha e tudo.”

Água
“Esta faixa já entra mais no clima de demos e alt takes [tomadas alternativas] do disco. Ela é a primeira versão do Dinho para a faixa ‘Sombrou Dúvida’, que dá o título para o nosso álbum anterior. Então é um registro de como esta música era antes de ser incorporada pela banda – é um trecho do Dinho produzindo esta música sozinho, com gravador de fita cassete, com um final bem maluco, que parece uma orquestra reversa. Acho que ‘Água’ funciona muito bem para os fãs sentirem o clima de como ela foi escrita, de como ela surgiu na cabeça do Dinho. É um trecho bem especial pra gente também.”

Are You Crazy, Julian?
“Esta é a música instrumental do disco. Mesmo que o Boogarins não seja uma banda instrumental, temos vários temas longos, instrumentais, nos shows e gravações, e esta, especificamente, surgiu no meio de uma sessão no estúdio onde a gente finalizou o Sombrou Dúvida. Foi uma ideia que o Dinho puxou e de que a gente gostou muito, então paramos o que estávamos fazendo, focamos nela e saiu esta faixa em 15 minutos. Foi simples assim. A gente ficava sempre bastante isolado quando estava gravando no estúdio, mas esse dia foi engraçado porque todo mundo que ensaiava ou gravava ali, como o Black Angels, que é um grupo de Austin, estava lá nesse dia. E o pessoal entrava no estúdio, ouvia a gente gravando e falava: ‘Ah, essa música é legal, essa daí é um hit mesmo’. A gente gostou tanto desse tema instrumental que decidimos usar no álbum assim mesmo. É uma música para a qual a gente vai pedir para os fãs mandarem ideias de vocal, e fazer essa pegada mais colaborativa, que tem bastante a ver com o que a gente faz nas gravações – costumamos usar muito áudio de celular, sons inusitados; aliás, fazemos oficinas para o público mostrando como a gente trabalha isso. Essa coisa de a gente tentar trazer essa galera mais para perto e também usar da nossa visibilidade para mostrar um pouco do trabalho deles diz muito sobre o que é o Boogarins.”

Inocência
“Esta faixa é cantada pelo Rafael, e saiu no compacto Fefel 2020. Era uma demo que a gente gostava muito. Na verdade, nem curtimos este termo ‘demo’, falamos no sentido de ser uma produção específica, mais solitária, mas que não foge do que é nossa discografia. Se você escutar nossos discos, nenhuma música fica acima ou aquém de ‘Inocência’.”

João 3 Filhos
“É uma faixa que a gente gravou na mesma época do álbum Lá Vem a Morte, mas acabou não entrando nele. É uma faixa bem massa, também dessa fase em que a gente estava gravando nessa casa em Austin, onde ficamos por dois meses, e começamos com essa história de Manchaca. Na época, achamos que ‘João 3 Filhos’ tinha tudo a ver com o Lá Vem a Morte, mas a gente mandou para a [cantora carioca] Ava Rocha, querendo que ela gravasse um vocal – achamos que a música combinava com a voz dela, que seria legal ter uma participação no disco, que era algo que nunca tínhamos feito antes, e quando ela escutou, disse que queria a música no disco dela. A gente ficou feliz com isso e pensou: ‘Beleza, a gente solta essa música depois.’ Só que o Sombrou Dúvida, nosso trabalho seguinte, virou um outro disco, a sonoridade já tinha ido para outro lugar. Aí esta faixa ficou de fora, mas a gente a adorava. A versão da Ava é uma pauleira, um rock muito bem executado, enquanto a nossa é essa coisa mais lo-fi, um violãozinho com vários elementos eletrônicos, um pouco mais sonhadora. A gente está bem animado de ver essa música sair para o mundo, porque muita gente já sabe que ela é do Dinho e também conhece a versão da Ava. Além disso, o Dinho já tocou em algumas lives. Então acho que é um som pelo qual o pessoal está esperando.”

Cães do Ódio
“Esta faixa surgiu numa sessão de improviso que a gente fez para o filme Boogarins na Casa das Janelas Verdes, que saiu pela Void, junto com uma revista. Então é uma faixa que nosso público, que acompanha a gente de perto mesmo, já conhece – já escutou o refrão que aparece nessa sessão de improviso. Então, a gente está bem animado de lançar essa versão de estúdio. Na primeira live com a banda que fizemos durante a pandemia, cantamos ‘Cães do Ódio’, e o pessoal ficou também bem animado, querendo escutá-la de novo, porque ela nunca tinha sido tocada fora dessa sessão de improviso no filme.”

Espera Fala de Novo
“Esta é outra faixa do Rafael que, quando lançamos o Lá Vem a Morte, achamos que tinha tudo a ver com o disco. Na época, a gente estava com essa ideia de transformar o Lá Vem… em um EP e usar as músicas que restaram no Sombrou Dúvida, e achamos que ‘Espera Fala de Novo’ entraria nessa também. Mas, quando fomos para o estúdio e o álbum acabou virando um rock mais agressivo, ela meio que perdeu espaço e foi deixada de lado. Só que esta é uma das músicas do Rafael que, acho eu, mais se encaixa com a banda, no sentido de experimentação mesmo. Ele é o baixista da banda, mas é um violonista também, escreve músicas no violão de um jeito bem brasileiro, bastante influenciado por samba e outros ritmos mais dançantes. Então é uma música pela qual tenho muito apreço. Claro, tenho apreço por todas, mas esta especificamente é bem gostosinha, popzinha.”

Sai de Cima (Live at Hotel Vegas)
“Esta é a única faixa ao vivo que a gente colocou no disco. Desse tanto de coisa que fizemos em Austin, também gravamos bastante show, e ‘Sai de Cima’ era uma música que a gente usava para abrir os shows. Era uma época em que a gente estava em turnê já fazia dois anos, e meio que em transição para essa coisa com sintetizador. A gente ainda não levava sintetizador para o palco porque era muito trabalhoso e, até então, não fazia sentido, não tínhamos repertório para usar ainda. E esta música surgiu nesse clima de improviso, e o registro foi no Hotel Vegas, uma casa de show clássica de Austin, muito ligada a essa cena psicodélica de lá, com Black Angels, Holy Wave, várias bandas importantes dessa cena da cidade fazem shows lá. Quando a gente toca no SXSW, sempre fazemos pelo menos dois shows no Hotel Vegas. Então, se brincar, é a casa onde a gente mais tocou na vida. É um lugar bem importante, principalmente para essa cena do Levitation, que é um festival de rock psicodélico e de todo tipo de música que te tira desse plano, sabe? Tem muita música eletrônica, tem post-rock, sons africanos, as guitarradas dos tuaregues. Então é uma casa que envolve toda a comunidade da música de Austin, e a gente ter esse registro ao vivo lá faz todo sentido, já que é um disco que traz no nome uma referência direta à Austin.”

Tanta Coragem
“Esta é uma das músicas mais piradas do Rafael, bem nesse formato de ele se produzir sozinho. Acho que ela vai muito para um lado mais onírico, tem umas partes bem diferentes, mas que se encaixam bem. É uma música surpreendente, que traz aquela recompensa gostosa, de quando você ouve uma música que tem partes que são bem discrepantes.”

Make Sure Your Head Is Above (Voice Memo)
“Esta foi uma das primeiras músicas em inglês que o Dinho escreveu em um processo totalmente orgânico, sem parar para pensar: ‘Vou fazer uma música em inglês.’ Ele compôs, gravou no celular e mandou para algumas pessoas. Aí a [cantora paulistana] Céu entrou em contato com o Dinho dizendo que queria gravar a música para o disco dela, o APKÁ!. Então a gente acabou nem usando, só tínhamos esse registro do áudio do celular. Mas a gente gostava muito de ‘Make Sure Your Head is Above’, escutava bastante esse áudio do Dinho, já achava lindo, então masterizamos esse áudio para lançá-lo como versão oficial. É a primeira vez que o Dinho toca a música mesmo – ele ligou a bateria eletrônica, tocou a guitarra... É um registro bem especial.”

ASMR Manchaca (sombrouduvida genesis)
“Sabe aquele tipo de vídeo de ASMR que o pessoal posta no YouTube? Esta música é inspirada nisso, porque é parte de uma sessão de improviso de duas horas que a gente estava fazendo lá na casa, gravando, tocando, meio que aleatoriamente, tentando achar ideias musicais totalmente novas. Foi um improviso bem quebradeira. Para quem gosta do conceito, pode falar que é free jazz, já que a gente tem o Ynaiã na bateria, e ele destrói mesmo. Então surgiu esta faixa que se sustenta por esse solo de bateria do Ynaiã, mas que também tem vários outros ruídos, que, para a gente, lembraram muito esses sons de relaxamento que a galera coloca na internet. Mas talvez seja um ASMR mais de pesadelo, mais de paranoia do que de relaxamento [risos].”

Noite Bright
“Esta foi outra faixa que surgiu de improviso. A gente estava compondo esta música, inventando-a, tentando achar os caminhos, o Dinho encaixando a letra enquanto a gente tocava, então ela é totalmente guiada pelo improviso, mas acabou virando uma canção romântica mesmo, tem umas frases bem bonitas do Dinho e um tema bonito também, que descamba para um improviso mais livre, bem carregado.”

LVCO 2
“A gente já lançou uma LVCO, que é a 4. Ela está na versão estendida do Lá Vem a Morte. É uma faixa que, a princípio, não tinha saído, a mesma história das músicas deste álbum. A LVCO 1 saiu apenas no vinil de Sombrou Dúvida. A série LVCO traz músicas cantadas por mim. É a única faixa que eu canto no Manchaca Vol. 1. E elas têm muito essa pegada meio demo: são faixas que eu compus gravando só com o celular, então tem essa estética que a gente vem desenvolvendo e que não cabia nos outros discos, mas que faz todo sentido neste álbum. E a gente encerra assim, com um som mais ruidoso, mas que tem uma melodia vocal bem bonita, chamando para uma coisa mais nostálgica, que acalenta os ouvidos no meio de uma ruideira danada.”

MÚSICA
Aquele Som
1
3:44
 
Água
2
2:37
 
Are You Crazy, Julian?
3
3:48
 
Inocência
4
2:55
 
João 3 Filhos
5
3:37
 
Cães do Odio
6
2:23
 
Espera Fala de Novo
7
3:05
 
Sai de Cima (Live at Hotel Vegas)
8
5:28
 
Tanta Coragem
9
2:39
 
Make Sure Your Head Is Above (Voice Memo)
10
2:33
 
Asmr Manchaca (Sombrouduvida Genesis)
11
5:14
 
Noite Bright
12
5:51
 
Lvco 2
13
2:49
 

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