11 Músicas, 35 minutos

NOTAS DOS EDITORES

Depois de anos à frente de Alabama Shakes, banda de rock ganhadora do GRAMMY, Brittany Howard pegou a estrada. No verão de 2017, ela e sua companheira viajaram pelos Estados Unidos parando em “parques nacionais, lanchonetes, paradas de caminhões, em todos os lugares”, disse ela ao Apple Music. “Foi um dos melhores momentos da minha vida.” A viagem teve seus momentos ruins. “Uma pessoa disparou fogos de artifício na gente no Wyoming; vimos caminhões e caminhões com a bandeira confederada”, lembra ela — mas esses encontros possibilitaram momentos de autodescoberta.
Howard, que cresceu em Athens, Alabama, com uma mãe branca e um pai negro, insiste que esses momentos não mudaram a maneira como ela se sente em relação ao seu país. “Sou americana para caralho”, disse ela. “Essas pessoas acham que são americanas, mas estão fazendo merdas bem antiamericanas.” Quando ela voltou para casa, e finalmente começou a trabalhar, gravando o seu álbum solo com o engenheiro e produtor do Alabama Shakes, Shawn Everett, e batizando-o com o nome de sua irmã, que faleceu aos 13 anos, de câncer. “Este álbum não é necessariamente sobre ela, é sobre mim”, diz ela. “Pois muito do que eu sou hoje é por causa dela. Eu fiz este álbum para ela.” Aqui Howard fala sobre a sua estreia solo, faixa a faixa.


History Repeats
“Esta é a música mais antiga do álbum. Eu a compus há dois ou três anos, terminei em um dia e esqueci dela completamente. Eu não escrevi de propósito. Eu estava mostrando a um amigo meu como eu uso o meu software de gravação, juntando as coisas em uma demo e, enquanto fazia isso, escrevi ‘History Repeats’. Encontrei-a alguns anos depois.”


He Loves Me
“Acabei de adquirir um novo compressor chamado Distressor — é como uma peça de rack — e coloquei bateria, guitarra, baixo. Mas toda vez que eu escrevia um verso, a música parava e eu pensava: ‘O que eu vou colocar aqui? O que eu quero dizer?’ Acabei decidindo seguir a linha de baixo e improvisar. A primeira coisa que saiu da minha boca foi ‘eu não vou mais à igreja. Eu sei que ele ainda me ama’. Foi assim. Entrei na internet para encontrar um pastor falando sobre por que eu deveria ir à igreja e acabei assistindo a um sermão de duas horas de um cara chamado Terry Anderson. Eu amei tanto o timbre da voz dele que peguei partes do sermão e as coloquei na música.”


Georgia
“As pessoas dizem que as músicas deste álbum têm duplo sentido. Para mim, muitas delas têm um significado triplo: existe o mundo, depois existe eu no mundo e depois há o pequeno eu dentro de mim. É como uma boneca russa. Eu compus ‘Georgia’ a partir da minha perspectiva quando era criança. É uma canção romântica dedicada a uma garota mais velha. Da perspectiva de uma garotinha que ainda não entende o que significa ser gay. É apenas uma paixão inocente, sobre como os crushes se tornam o centro do seu mundo quando você é muito jovem.”


Stay High
“Eu fui para Topanga, Califórnia, para compor depois da minha viagem — para me inspirar, eu acho. Não estava funcionando. Eu estava infeliz. Era tão bonito o lugar, cheio de jardins e montanhas, mas eu estava lá sentada, tipo, ‘Porra, odeio isso’. Eu estava lá com a minha companheira, que é escritora e estava escrevendo um livro, e todas as noites nos reuníamos e era tipo, ‘Então, tudo fluindo?’ Um dia eu finalmente apareci com alguma coisa, mas não tinha orgulho daquilo, não estava convencida. Eu falei tipo, ‘Eu acho que esse é um passo na direção errada, mas aqui vai’. Quando eu apertei o play, ela olhou para mim e disse: ‘Na verdade, eu acho que essa vai ser o maior sucesso’.”


Tomorrow
“Esta a faixa é para os ouvintes avançados. É aquela que as pessoas geralmente não comentam, mas, cara, eu a adoro. Para mim, parece três músicas em uma só. No começo é tipo, ‘Eu não estou me sentindo muito bem com algumas coisas, mas vou lidar com elas algum dia, mas não hoje.’ A segunda parte é tipo ‘Agora é amanhã, o que eu quero?’ Aqui é onde entra a parte política e global, perguntando coisas como ‘Como vamos melhorar isso e quando vamos fazer isso?’ Então a terceira parte é onde fica tudo: ‘Vamos dar as mãos e ir para a Disney World. A vida é curta.’ A ideia é que eu me sinta ansiosa, mas também esperançosa em relação ao amanhã, então vamos torná-lo o melhor possível.”


Short and Sweet
“É sobre o começo de um relacionamento quando você acha que não vai dar certo. Você está dizendo: ‘Tudo bem, vou aproveitar isso e estar presente sem colocar muita pressão em nada’.”


13th Century Metal
“Este título é muito literal: esta música soa como metal, mas também como um canto gregoriano. Robert Glasper toca nesta música, e o engraçado é que ele estava só tentando descobrir como usar esse teclado estranho. [O baterista] Nate Smith e eu falamos: ‘Rob, toque essas teclas e veja se você consegue fazer um bom som’. Então ele entra na cabine e fica brincando, tocando e tocando, e finalmente eu falei, ‘Espera um pouco, isso é bom.’ Rob toca a música toda. É tudo improvisado. Um take. No final, acrescentei uma poesia que escrevi num dia em que realmente precisava de inspiração. O presidente Trump tinha sido eleito e Prince tinha morrido — havia muita coisa ruim acontecendo. Eu fiquei tipo, ‘Uau, eu não conheço este mundo…’ Então comecei a escrever.”


Baby
“Esta foi uma inclusão de última hora. Eu tinha esse riff, e isso estava me deixando louca, porque eu sabia que o adorava e sabia que queria usá-lo, mas simplesmente não sabia como. Eu estava deitada na cama uma noite, procurando letras no meu computador e me deparei com uma ideia interessante que eu escrevi depois de terminar com uma pessoa. É sobre um desses relacionamentos em que você faz 80% do trabalho, e o outro diz, ‘Ei, baby…’, e você pensa, ‘Não, eu não sou o seu baby. Eu conheço você’.”


Goat Head
“Esta foi a música mais difícil de compor. Eu tinha a letra que escrevi sobre como era crescer no sul, mas ela era estranhamente fofa: ‘Tomates são verdes / Algodão é branco’ e assim por diante. Ela era do ponto de vista de uma criança entendendo o mundo, entendendo o sul. Então me ocorreu: ‘Cabeça de cabra’. Me lembrei na hora: quem cortou uma cabeça de cabra e a colocou na traseira do carro do meu pai? É algo doloroso, abrupto e chocante, mas essa é a ideia. Eu participei de algumas dessas festas de audição musical que os artistas fazem de vez em quando onde tocam suas músicas, e toda vez que eu tocava, as pessoas riam nervosamente ou apenas suspiravam e choravam. E até comigo, logo depois que cantei pela primeira vez, senti-me instantaneamente muito vulnerável e desconfortável. Entrei na sala de controle e falei algo do tipo ‘Acho que não podemos usar isso’. E Shawn falou tipo, ‘Oh, não. Já estamos usando’.”


Presence
“Durante o tempo em que fiquei naquela casa em Topanga, fumamos muita maconha. Mas o fato é que eu não fumo maconha. Eu realmente não gosto do jeito que ela me faz sentir. Mas, sabe como é, estávamos em Topanga e eu descobri um aplicativo pelo qual se pode comprar maconha. Fiquei chocada. Eu sou do Alabama. Se você é pego com maconha, vai direto para a cadeia. Então, eu fiz o log in e fui notificada que minha compra seria entregue em 30 minutos. Ele vai nos trazer um saco de maconha!’ Ficamos nervosas pois compramos US$ 400. Enfim, acabamos tendo uma conversa legal sobre estar mais presente e ficar mais centrada, e então eu escrevi esta música. Meu sentimento era: eu realmente amo sair com a minha parceira. E se ela não estiver mais por perto? Eu deveria dar valor a isso e não achar que este é um fato consumado.”


Run to Me
“Esta é uma música estranha. Eu estava limpando minha casa e o meu laptop estava na cama. Normalmente eu não faço isso, mas você pode tocar acordes usando o Logic e basicamente tocar um piano digital falso. E nesse dia, na hora, escrevi esta faixa de sintetizador inteira enquanto pegava garrafas de Comet e limpava o meu chuveiro. Eu ficava repetindo na minha cabeça a frase ‘corra para mim’, provavelmente porque eu estava triste na época, já que a pessoa com quem estava era uma bela merda. Eu tinha esses pequenos fones de ouvido da Apple que têm um pequeno microfone, e eu simplesmente cantava enquanto as palavras surgiam na minha cabeça. E o engraçado é que esses vocais originais são os da faixa final.”

NOTAS DOS EDITORES

Depois de anos à frente de Alabama Shakes, banda de rock ganhadora do GRAMMY, Brittany Howard pegou a estrada. No verão de 2017, ela e sua companheira viajaram pelos Estados Unidos parando em “parques nacionais, lanchonetes, paradas de caminhões, em todos os lugares”, disse ela ao Apple Music. “Foi um dos melhores momentos da minha vida.” A viagem teve seus momentos ruins. “Uma pessoa disparou fogos de artifício na gente no Wyoming; vimos caminhões e caminhões com a bandeira confederada”, lembra ela — mas esses encontros possibilitaram momentos de autodescoberta.
Howard, que cresceu em Athens, Alabama, com uma mãe branca e um pai negro, insiste que esses momentos não mudaram a maneira como ela se sente em relação ao seu país. “Sou americana para caralho”, disse ela. “Essas pessoas acham que são americanas, mas estão fazendo merdas bem antiamericanas.” Quando ela voltou para casa, e finalmente começou a trabalhar, gravando o seu álbum solo com o engenheiro e produtor do Alabama Shakes, Shawn Everett, e batizando-o com o nome de sua irmã, que faleceu aos 13 anos, de câncer. “Este álbum não é necessariamente sobre ela, é sobre mim”, diz ela. “Pois muito do que eu sou hoje é por causa dela. Eu fiz este álbum para ela.” Aqui Howard fala sobre a sua estreia solo, faixa a faixa.


History Repeats
“Esta é a música mais antiga do álbum. Eu a compus há dois ou três anos, terminei em um dia e esqueci dela completamente. Eu não escrevi de propósito. Eu estava mostrando a um amigo meu como eu uso o meu software de gravação, juntando as coisas em uma demo e, enquanto fazia isso, escrevi ‘History Repeats’. Encontrei-a alguns anos depois.”


He Loves Me
“Acabei de adquirir um novo compressor chamado Distressor — é como uma peça de rack — e coloquei bateria, guitarra, baixo. Mas toda vez que eu escrevia um verso, a música parava e eu pensava: ‘O que eu vou colocar aqui? O que eu quero dizer?’ Acabei decidindo seguir a linha de baixo e improvisar. A primeira coisa que saiu da minha boca foi ‘eu não vou mais à igreja. Eu sei que ele ainda me ama’. Foi assim. Entrei na internet para encontrar um pastor falando sobre por que eu deveria ir à igreja e acabei assistindo a um sermão de duas horas de um cara chamado Terry Anderson. Eu amei tanto o timbre da voz dele que peguei partes do sermão e as coloquei na música.”


Georgia
“As pessoas dizem que as músicas deste álbum têm duplo sentido. Para mim, muitas delas têm um significado triplo: existe o mundo, depois existe eu no mundo e depois há o pequeno eu dentro de mim. É como uma boneca russa. Eu compus ‘Georgia’ a partir da minha perspectiva quando era criança. É uma canção romântica dedicada a uma garota mais velha. Da perspectiva de uma garotinha que ainda não entende o que significa ser gay. É apenas uma paixão inocente, sobre como os crushes se tornam o centro do seu mundo quando você é muito jovem.”


Stay High
“Eu fui para Topanga, Califórnia, para compor depois da minha viagem — para me inspirar, eu acho. Não estava funcionando. Eu estava infeliz. Era tão bonito o lugar, cheio de jardins e montanhas, mas eu estava lá sentada, tipo, ‘Porra, odeio isso’. Eu estava lá com a minha companheira, que é escritora e estava escrevendo um livro, e todas as noites nos reuníamos e era tipo, ‘Então, tudo fluindo?’ Um dia eu finalmente apareci com alguma coisa, mas não tinha orgulho daquilo, não estava convencida. Eu falei tipo, ‘Eu acho que esse é um passo na direção errada, mas aqui vai’. Quando eu apertei o play, ela olhou para mim e disse: ‘Na verdade, eu acho que essa vai ser o maior sucesso’.”


Tomorrow
“Esta a faixa é para os ouvintes avançados. É aquela que as pessoas geralmente não comentam, mas, cara, eu a adoro. Para mim, parece três músicas em uma só. No começo é tipo, ‘Eu não estou me sentindo muito bem com algumas coisas, mas vou lidar com elas algum dia, mas não hoje.’ A segunda parte é tipo ‘Agora é amanhã, o que eu quero?’ Aqui é onde entra a parte política e global, perguntando coisas como ‘Como vamos melhorar isso e quando vamos fazer isso?’ Então a terceira parte é onde fica tudo: ‘Vamos dar as mãos e ir para a Disney World. A vida é curta.’ A ideia é que eu me sinta ansiosa, mas também esperançosa em relação ao amanhã, então vamos torná-lo o melhor possível.”


Short and Sweet
“É sobre o começo de um relacionamento quando você acha que não vai dar certo. Você está dizendo: ‘Tudo bem, vou aproveitar isso e estar presente sem colocar muita pressão em nada’.”


13th Century Metal
“Este título é muito literal: esta música soa como metal, mas também como um canto gregoriano. Robert Glasper toca nesta música, e o engraçado é que ele estava só tentando descobrir como usar esse teclado estranho. [O baterista] Nate Smith e eu falamos: ‘Rob, toque essas teclas e veja se você consegue fazer um bom som’. Então ele entra na cabine e fica brincando, tocando e tocando, e finalmente eu falei, ‘Espera um pouco, isso é bom.’ Rob toca a música toda. É tudo improvisado. Um take. No final, acrescentei uma poesia que escrevi num dia em que realmente precisava de inspiração. O presidente Trump tinha sido eleito e Prince tinha morrido — havia muita coisa ruim acontecendo. Eu fiquei tipo, ‘Uau, eu não conheço este mundo…’ Então comecei a escrever.”


Baby
“Esta foi uma inclusão de última hora. Eu tinha esse riff, e isso estava me deixando louca, porque eu sabia que o adorava e sabia que queria usá-lo, mas simplesmente não sabia como. Eu estava deitada na cama uma noite, procurando letras no meu computador e me deparei com uma ideia interessante que eu escrevi depois de terminar com uma pessoa. É sobre um desses relacionamentos em que você faz 80% do trabalho, e o outro diz, ‘Ei, baby…’, e você pensa, ‘Não, eu não sou o seu baby. Eu conheço você’.”


Goat Head
“Esta foi a música mais difícil de compor. Eu tinha a letra que escrevi sobre como era crescer no sul, mas ela era estranhamente fofa: ‘Tomates são verdes / Algodão é branco’ e assim por diante. Ela era do ponto de vista de uma criança entendendo o mundo, entendendo o sul. Então me ocorreu: ‘Cabeça de cabra’. Me lembrei na hora: quem cortou uma cabeça de cabra e a colocou na traseira do carro do meu pai? É algo doloroso, abrupto e chocante, mas essa é a ideia. Eu participei de algumas dessas festas de audição musical que os artistas fazem de vez em quando onde tocam suas músicas, e toda vez que eu tocava, as pessoas riam nervosamente ou apenas suspiravam e choravam. E até comigo, logo depois que cantei pela primeira vez, senti-me instantaneamente muito vulnerável e desconfortável. Entrei na sala de controle e falei algo do tipo ‘Acho que não podemos usar isso’. E Shawn falou tipo, ‘Oh, não. Já estamos usando’.”


Presence
“Durante o tempo em que fiquei naquela casa em Topanga, fumamos muita maconha. Mas o fato é que eu não fumo maconha. Eu realmente não gosto do jeito que ela me faz sentir. Mas, sabe como é, estávamos em Topanga e eu descobri um aplicativo pelo qual se pode comprar maconha. Fiquei chocada. Eu sou do Alabama. Se você é pego com maconha, vai direto para a cadeia. Então, eu fiz o log in e fui notificada que minha compra seria entregue em 30 minutos. Ele vai nos trazer um saco de maconha!’ Ficamos nervosas pois compramos US$ 400. Enfim, acabamos tendo uma conversa legal sobre estar mais presente e ficar mais centrada, e então eu escrevi esta música. Meu sentimento era: eu realmente amo sair com a minha parceira. E se ela não estiver mais por perto? Eu deveria dar valor a isso e não achar que este é um fato consumado.”


Run to Me
“Esta é uma música estranha. Eu estava limpando minha casa e o meu laptop estava na cama. Normalmente eu não faço isso, mas você pode tocar acordes usando o Logic e basicamente tocar um piano digital falso. E nesse dia, na hora, escrevi esta faixa de sintetizador inteira enquanto pegava garrafas de Comet e limpava o meu chuveiro. Eu ficava repetindo na minha cabeça a frase ‘corra para mim’, provavelmente porque eu estava triste na época, já que a pessoa com quem estava era uma bela merda. Eu tinha esses pequenos fones de ouvido da Apple que têm um pequeno microfone, e eu simplesmente cantava enquanto as palavras surgiam na minha cabeça. E o engraçado é que esses vocais originais são os da faixa final.”

TÍTULO DURAÇÃO