Notas dos editores A angústia e os questionamentos trazidos pelo momento em que vivemos, com o isolamento social causado pela pandemia do novo coronavírus, foi o que inspirou a Scalene a produzir o EP “Fôlego”, trabalho com cinco canções inéditas, que é praticamente um complemento do álbum “Respiro”, lançado em 2019.

“É uma continuidade do ‘Respiro’, sem dúvida alguma, continua em uma linha mais suave, mais MPB, e eu tô considerando, já posso adiantar para você – os caras nem queriam que eu falasse isso, mas vou falar, porque acho legal, que é uma coisa que tem que se colocar –, uma despedida nossa desse momento suave, sabe?”, avisa o vocalista Gustavo Bertoni ao Apple Music. “A gente entrou nesse momento do ‘Respiro’, que era um som mais suave, uma coisa mais introspectiva, dando um tempo do rock mais pesado, mas agora que a gente colocou isso para fora, mostrou essa versatilidade também, estamos superanimados para voltar para um som pesado, para um som urbano, denso. Tem muita gente que já estava super a fim de ver a gente voltando para isso.”

Isolados, cada um em sua casa, Gustavo, Tomas Bertoni (guitarra), Lucas Furtado (baixo) e Philipe Nogueira (bateria) tiveram que criar uma dinâmica para produzir as cinco canções à distância, já que estavam acostumados a sempre produzir juntos em estúdio, promovendo encontros para mostrar o que cada um estava fazendo, trocar ideia. “O processo foi realmente inédito para a gente, né? Normalmente, a fase de demo de um álbum até envolve essa troca de arquivos e a galera gravar coisas à distância. Rolou uma confiança mútua que foi bem boa no processo, sabe? A gente meio que consolidou um modo de trabalho à distância que pode ser muito bem aplicado no futuro, mesmo podendo estar juntos”, explica Gustavo, que também destacou a confiança em Diego Marx, produtor do EP e praticamente “quinto membro” da Scalene. “Foi muito massa ter o registro de algumas músicas com uma influência mais ativa dele [Diego]. Várias coisas que ele mesmo gravou e deu a cara dele, e tal. Então foi muito fluido e natural, o Diegão tem toda a nossa admiração e confiança, foi legal ter a cara dele ainda mais forte neste EP também.”

Segundo Gustavo, a ideia inicial era fazer de Fôlego um EP despretensioso, algo mais simples, mas que acabou se tornando um trabalho importante para a discografia da banda. “Acabou sendo um projeto que conseguiu direcionar bastante a nossa energia durante a quarentena, e a gente conseguiu criar algo que é bem sólido e pertinente para o momento em que a gente está vivendo. Acho que vai gerar uma reflexão legal para quem escutar o EP de coração aberto”, afirma o vocalista.

Abaixo, Gustavo Bertoni comenta as cinco faixas do EP Fôlego:

Caburé
“‘Caburé’ foi a primeira música a ser composta, e fez muito sentido ela abrir o EP por causa disso também. Foi a primeira música que eu escrevi durante a pandemia, no quintal da casa dos meus pais. Agora eu já estou de volta a São Paulo, em um apartamento dez vezes menor do que a casa deles, no 21º andar, com uma vista para a selva de concreto. Então acho que a música traz um pouco dessa sensação familiar e contempla o pós-pandemia, o que a gente vai levar disso, o que a gente vai aprender com isso. No segundo verso, falo sobre coisas bem humanas e que nos fazem encontrar a felicidade nas pequenas coisas. Então, quando falo do Caburé, que é uma coruja, e do dançaral no quintal, das árvores dançando e tal, é uma coisa que estava me aterrando e estava colocando as coisas em perspectiva, porque acho que todo mundo está vivendo isso. A gente está recolocando certas coisas em perspectiva, ressignificando o valor de certas coisas para a gente, então esta música é feita com a reflexão dessa sensação de encontrar o que realmente importa e, também, me recuso a acreditar que a humanidade seja só isso que a gente está conseguindo demonstrar, sabe? Acredito no nosso potencial e acho que tem muito mais que a gente pode ser, muito mais que a gente pode descobrir. Além dessas instituições e comportamentos todos que a gente está percebendo, que são muito falhos, são muito autodestrutivos, nossas instituições, nossas crenças, o que é normal, porque tudo isso é criação humana, então estranho seria se não fosse falho, se não fosse finito. Então é só uma questão de olharmos para dentro e de dentro a gente tirar o que precisa de matéria-prima para reconstruir alguns dos pilares que servem de suporte para a humanidade.”

Passageiro
“Isso que falei de ‘Caburé’ ter sido a primeira, minto, foi ‘Passageiro’. ‘Caburé’ foi a primeira a terminar, mas acabei de lembrar que ‘Passageiro’ foi a primeira música que comecei a fazer, em Joanópolis (SP), quando estava lá, em um retiro no meio do mato. Depois a música foi finalizada com os moleques, durante a quarentena, mas foi logo antes de me isolar. Eu estava em um retiro no meio do mato e me veio essa ideia de que a gente está sempre buscando um aprimoramento olhando para o externo, olhando para o outro, para o que agregar, para o que somar. A gente acha que esse aprimoramento pessoal vai vir sempre de fora, então quando falo que parei de querer mudar – e acho que só se muda sendo – , é sobre abraçar o que a gente já tem, é com esse olhar interno, a gente aprimorar o que a gente já é, e o que a gente é na essência. Acho que, com o mundo de mídias sociais e vidas perfeitas assim, a gente fica olhando muito para o exterior, para o que a gente tem que buscar, com o que a gente tem que parecer para melhorar quando, na verdade, a essência disso tudo já está dentro. Então brinquei com essa ideia de que parei de querer mudar e acho que para mudar, só sendo. Aí saio dessa reflexão para uma coisa mais do momento que a gente está vivendo, que é, qual será o nosso firmamento, como é que a gente navega isso que a gente está vivendo e a noção de que tudo isso é passageiro. Assim como tudo, assim como a vida é. Então acho que essa música é mais para trazer esse afago para as pessoas, de fazer com que elas entrem em contato com elas mesmas, de uma forma mais leve, para passar por tudo isso.”

Caleidoscópio
“‘Caleidoscópio’ surgiu a partir de uma reflexão sobre o fato de todo mundo estar tentando dar o seu melhor, acho que as pessoas esquecem disso às vezes. A gente está em um momento de abrir a cabeça para várias coisas superimportantes e ressignificar muitas coisas, mas, ao mesmo tempo, rola uma certa cobrança desumana uns com os outros. E essa música fala sobre isto. Se tivesse todas as respostas, te daria, sabe? Se tivesse meu silêncio, te daria, mas está todo mundo cheio de ruído na cabeça. Então também tem a ver com essa parada de olhar para dentro e aceitar seus limites. A partir da aceitação dos limites, você consegue se aceitar por inteiro. Acho que conecta muito com a segunda música, essa coisa do autoaprimoramento não vir a partir de uma autocobrança e de um olhar para o externo, mas sim de uma integração do que você já é. Integrar é diferente de se acomodar com o que você não quer; integrar é aceitar para conseguir olhar para aquilo de uma forma mais clara, acho que esta música é sobre isso. Essa é uma das faixas das quais mais tenho orgulho do processo à distância, porque compus o esqueleto da música e queria que a gente a pintasse com muitas imagens. Acabou que o nome que veio depois, ‘Caleidoscópio’, complementou essa ideia inicial, que era ter uma canção com voz e violão acontecendo, enquanto rolavam todas essas camadas, com rajadas de tinta acontecendo. E foi muito legal porque foi muito instintivo para os caras arranjarem com essas texturas todas, sabe? Mandei a música, e Tomas, Lucão e o Diego colocaram suas texturas e rolou de uma forma impressionante. Cada um preencheu um lugar, e sem se comunicar com o outro. Isso foi incrível. Então, quando eles mandaram suas ideias, o Diego só estruturou, e a música já estava superacontecendo, então foi um dos momentos de produção à distância que nos surpreendeu muito positivamente. No fim das contas, funcionou muito bem com a letra e o nome da música, porque, como falei, está todo mundo querendo dar o seu melhor dentro do seu contexto e da sua vivência. Então acho que ‘Caleidoscópio’ traz essa imagem, de uma visão muito múltipla, muito diversa, que abre vários ângulos, então, sei lá, acho que a semiótica da música ornou.”

Espelho
“‘Espelho’ foi uma música que entrou quase que de última hora no EP, porque com todos os acontecimentos mundiais, de luta contra o racismo, entrando em contato com todas essas notícias, esses vídeos, uma angústia muito grande estava crescendo em mim e, um dia, sinceramente, completamente abalado pela história, p*** comigo mesmo e com o mundo, sentei para desabafar sobre o tema e saiu isso. Foi muito bom para a gente poder tirar do peito essa angústia sobre o assunto, que é de extrema importância e urgência. A gente até considera isso uma doença mais grave… A gente considera não; é uma doença mais grave do que o que estamos vivendo com a covid-19 e foi um processo de muito aprendizado, de como falar isso do nosso lugar de fala de homem branco. Então já tive muitas reflexões muito positivas sobre isso. Nasceu a partir de um vídeo específico que vi, de um ativista na rua, com o olho brilhando com o fogo que tinham acabado de colocar em um prédio, uma imagem noturna, e o olho desse ativista brilhando com o fogo. Aquilo me marcou muito, enquanto compunha a música, ficou muito na minha cabeça, então foi um processo de desabafar sobre esse tema que, acho que é o tema mais importante, a pauta mais urgente, que já está aí há séculos e que o ser humano é incapaz de superar. É muito estrutural, muito enraizado, e está na hora de sermos mais ativos com isso, como brancos, sermos mais antirracistas e admitir. Acho que o ponto principal é esse, a gente admite a nossa negligência, tá ligado? Admite a nossa passividade e compartilha a raiva que a gente tem de nós mesmos em relação a isso e com o sistema, com o racismo estrutural. Então a música é sobre isso. Ela é muito recente; a música, eu a regurgitei assim, quase que inteira. Terminamos, consultamos alguns amigos com mais lugar de fala sobre o assunto, e isso já foi uma troca muito rica. Deu tempo de colocar no EP, porque a gente já estava também com um modus operandi de gravação muito afiado, por já ter produzido as outras músicas à distância, e essa sendo a última, a gente já estava com todo o processo bem desenhado, então fluiu bem rápido.”

Estar a Ver o Mar
“‘Estar a Ver o Mar’ foi a única não composta durante o isolamento. Foi composta no fim de janeiro, no fim do verão ali, acho que ela é a única música romântica do EP. É sobre o processo de você conhecer alguém e se tocar que tudo que você tem a oferecer para essa pessoa, é ser você. E começar desde o primeiro dia numa troca de total sinceridade e transparência, como sempre deveria ser, mas que muitas vezes a gente tem certas dificuldades, certas barreiras, quando a gente conhece alguém. E essa música é sobre ter vivenciado uma experiência curta, porém profunda com alguém que, ao entrar com esse ‘mindset’, de ser totalmente transparente, você entra e sai totalmente leve. Os dois entram e saem completamente leves da vivência. Acho que ela casou bem com este EP, porque fala sobre contemplar o incontrolável, que é o que a gente está vivendo, abrir mão do controle. Quando falo estar a ver o mar, para mim, é uma imagem de você estar contemplando o vasto, o grandioso, o incontrolável... a força do mar é. Acho que é uma boa metáfora para a vida, uma boa metáfora do que a gente está vivendo agora, que é de [deixar] se conduzir pelas coisas e não necessariamente tentar controlar, sabe. Acho que a gente, conseguindo viver com essa capacidade de flutuar pela vida e não tentar controlar as coisas, acho que pode ser uma receita para uma vida mais tranquila e mais feliz. Acho que por mais que essa música seja romântica, ela tem a ver com o que a gente está vivendo também. É uma mensagem de estar bem com a incerteza, sabe, e é uma leveza realista, não é um escapismo, não é uma diminuição da gravidade das coisas. As coisas são como são, e a gente tem que aceitá-las do jeito que elas são. Então acho que a ideia deste EP não é promover um escapismo ou uma terra de fantasia para as pessoas se sentirem melhor. Acho que é sobre navegar por este momento que é tão difícil e intenso mesmo, entendeu? E tentar achar beleza e leveza nisso.”

MÚSICA
Caburé
1
3:09
 
Passageiro
2
2:51
 
Caleidoscópio
3
4:11
 
Espelho
4
3:39
 
Estar a Ver o Mar
5
3:01
 

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